Vasculhar esgoto é uma carreira em expansão: saiba por quê


"Epidemiologista de esgotos" não parece o tipo de emprego que atrai um grande número de candidatos. Mas, por mais incrível que pareça, essa é uma carreira que está se expandindo rapidamente.



Uma das principais funções desse profissional é descobrir como o nível do uso de drogas ilegais calculado em abordagens tradicionais, como questionários e estatísticas de criminalidade, pode ser comparado com as evidências mais diretas encontradas nos sistemas de esgoto de uma cidade ou de um bairro.
Por motivos óbvios, usuários de drogas ilegais nem sempre são honestos em relação a seus hábitos.

Por isso, dados obtidos através da análise do esgoto podem ajudar autoridades, pesquisadores e policiais a terem uma noção do verdadeiro escopo do consumo de entorpecentes em certo local.

Nos últimos seis anos, a epidemiologia de esgotos chegou praticamente às mesmas conclusões que outros métodos, ao quantificar o uso de drogas.

A técnica não identifica indivíduos. Pelo contrário, ela visa descobrir, por exemplo, se o uso de uma droga específica é particularmente alto em determinada cidade, o que poderia alertar as autoridades sobre a eficiência de campanhas e serviços de saúde pública naquela região, bem como se estão empregando os recursos policiais adequadamente.

Também é importante medir o nível de drogas nas águas escoadas porque essas substâncias são contaminantes. E as quantidades já são altas o suficiente para levantar preocupações sobre os efeitos em ecossistemas.

A resposta nos dejetos sólidos

Mas será que a epidemiologia de esgotos já nos deu o retrato completo da situação? Um novo estudo sugere que algumas pesquisas sobre drogas ilícitas encontradas nos sistemas de esgoto podem ter subestimado as verdadeiras quantidades sendo consumidas.

Muitos estudos realizados até hoje se concentraram em medir as drogas conduzidas pela urina, dissolvidas em água. No entanto, agora parece que a análise de material fecal pode ser mais precisa, já que algumas drogas tendem a "grudar" melhor em sólidos.

O estudo de dejetos pode revelar números sobre o uso de drogas como a maconha

Enquanto alguns estudos examinaram as drogas ilícitas presentes no esgoto sólido na Europa, os cientistas Bikram Subedi e Kurunthachalam Kannan, do Centro de Saúde Wadsworth, em Albany, no Estado de Nova York, conduziram o que parece ser o primeiro estudo sobre o assunto nos Estados Unidos.

Eles retiraram amostras de águas residuais e lodo de duas estações de tratamento de esgoto que cuidam dos dejetos de milhares de pessoas na região de Albany.

Em seguida, realizaram uma análise química para buscar por compostos relacionados a drogas.

Eles procuraram não apenas pelas próprias drogas – como cocaína, anfetamina, morfina (o composto ativo da heroína) e o alucinógeno metilenodioxiamfetamina (uma droga fabricada conhecida como "Sally" ou "Sass") – mas também por seus "metabólitos", os compostos relacionados nos quais elas podem se transformar no corpo.

Análise high-tech

Os dois cientistas também mediram quantidades de compostos comuns, como a nicotina e a cafeína, que atuam como marcadores químicos de excrementos humanos e por isso servem para indicar o número total de contribuintes individuais para o esgoto.

Para medir a quantidade de substâncias presentes nas amostras, Subedi e Kannan usaram uma técnica chamada espectrometria de massa.

Isso consiste em converter moléculas em íons eletricamente carregados ao injetar íons de hidrogênio neles, ou derrubando esses íons e aí acelerando-os através de um campo eletromagnético para atingir um detector.

O campo desvia os íons de uma rota em linha reta, mas quanto maiores eles são, menos podem ser desviados. Portanto, as moléculas são separadas em um "espectro" de diferentes massas.

A partir dessas medidas, os pesquisadores estimaram que, em Albany, o consumo de cocaína é quatro vezes maior do que foi descoberto em um estudo anterior de águas residuais nos Estados Unidos.

O nível de anfetamina foi seis vezes maior do que o mesmo estudo anterior, enquanto representa de 3 a 27 vezes o que se reporta na Espanha, na Itália e na Grã-Bretanha.

Ainda é cedo para afirmar, mas isso sugere que a epidemiologia de esgotos poderia se beneficiar ao encarar os sólidos.

Subedi e Kannan também foram capazes de descobrir se o tratamento de esgoto é bom o suficiente para remover esses ingredientes da água. Isso variou muito de acordo com cada substância: cerca de 99% da cocaína pode ser removido, mas apenas 4% do metabólito farmacologicamente ativo chamado norcocaína pode ser retirado.

Algumas drogas, como a metadona, mostraram uma aparente "remoção negativa", que significa que o tratamento das águas residuais estariam de fato transformando alguns dos compostos relacionados na droga.

A dupla de cientistas admite que ninguém realmente sabe quais os efeitos que essas substâncias ilegais terão quando chegaram aos ecossistemas naturais ou até a humanos ou a alguns animais que vivem na natureza.

A pesquisa ilustra uma verdade potencialmente negra: o mundo subterrâneo dos esgotos pode estar mais cheio de drogas do que imaginávamos."

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