Teremos música de graça no futuro?






Ninguém descobriu ainda a melhor maneira de remunerar os artistas na selvageria digital que tomou conta do setor desde o advento do Napster, em 1999.

Em meio ao caos, aparentemente são os fãs os únicos vencedores. Se o mundo da música tomar um certo rumo, poderá transformar os artistas em vencedores também. Mas se enveredar por outro caminho, estaremos de volta às origens, com uma nova leva de grandes corporações no comando do setor.

Do ponto de vista do músico, o aspecto gratuito da economia digital tem um lado negativo, resumido durante uma palestra recente dada por Iggy Pop. O veterano roqueiro americano disse que se dependesse da renda gerada pela venda de discos, "estaria fazendo um bico de barman entre um show e outro".

Iggy Pop reclamou de internautas que compartilham música
 "Hoje em dia, todo o mundo é contrabandista", afirmou, provavelmente incluindo muitos de seus fãs nessa categoria. Pop não é a favor de se processar as pessoas que compartilham arquivos, como a indústria fez há alguns anos. Mas diz que, para se manter hoje em dia, autoriza o uso de suas músicas em anúncios publicitários. Muitos dos artistas que, como ele, têm uma popularidade média lançaram mão do licenciamento como uma das várias fontes de renda necessárias para se sustentarem.

Casta privilegiada

Eles não estão na mesma posição de alguém como Taylor Swift, que retirou do serviço de streaming Spotify todas as suas músicas, incluindo as de seu último álbum, 1989. A cantora alegou que não quer "canibalizar" suas vendas.

"Não quero que o fruto do meu trabalho sirva para um experimento que não compensa de maneira justa os compositores, produtores, artistas e criadores das músicas", disse Swift ao portal Yahoo!, reiterando uma posição que ela já tinha deixado clara em um artigo para o The Wall Street Journal semanas antes. A estratégia se provou certeira: a venda de 1,3 milhões de cópias de 1989 (sem nenhuma reprodução no Spotify) foi a maior registrada pelo setor em uma semana desde 2002.

Mas Swift representa o 1% de privilegiados da indústria fonográfica. Ao lado de nomes como Beyoncé e Coldplay, ela pode se dar ao luxo de dispensar a exposição dos serviços de streaming. Com a notável exceção do Spotify, 1989 parecia estar em todos os lugares nas semanas que antecederam seu lançamento.

Invasão irlandesa

Uma lógica parecida guiou a mais recente aposta de distribuição do U2. A banda teria embolsado US$ 100 milhões da Apple para oferecer gratuitamente seu novo álbum, Songs of Innocence, a centenas de milhões de usuários do iTunes. Muitos dos ouvintes reclamaram da invasão em suas playlists. Mas o U2 conseguiu o que queria: agora, todo o mundo sabe que eles lançaram um novo álbum. Mesmo quem não curte o quarteto irlandês.

O U2 teria embolsado US$ 100 milhões da Apple por seu novo álbum
Mas a maioria dos artistas não tem condições de fechar acordos milionários, como o U2, ou de esnobar um dos mais populares serviços de streaming, como fez Swift. Os fãs de megaestrelas desse naipe ainda são tratados como consumidores, um grupo para quem as celebridades direcionam seus produtos. Temos aí apenas mais uma variação do modelo de negócios do século 20, quando corporações e intermediários controlavam a longa linha de produção entre artistas e o público.

Os fãs podem até terem se tornado "contrabandistas", mas hoje também atuam como formadores de opinião, marqueteiros e distribuidores. Seus smartphones lhes dão o poder não só de comprar músicas com apenas um clique como também de servirem de colaboradores de suas bandas preferidas.

Artistas não precisam só de pessoas para comprarem seus produtos, eles também precisam de defensores e aliados. Com a implosão da infraestrutura antes oferecida pelas gravadoras, novas bandas precisam de ajuda para tudo, do marketing ao gerenciamento de seus sites e canais nas redes sociais. Eles estão em um diálogo profundo com os fãs. Essa relação de cooperação ainda está se desenvolvendo, mas já promete mudar o jogo.

Internet neutra

A internet aberta e gratuita tornou esse futuro tangível. Por isso, não é de se estranhar que um punhado de multinacionais que antes dominavam o mercado agora gostaria de ver esse acesso modificado para equilibrar a balança a seu favor. A neutralidade da internet está sendo ameaçada por alguns poderosos que estão pressionando para que haja uma hierarquização do acesso à rede.

A iminente fusão entre dois desses gigantes, a Time Warner e a Comcast, é vista como a ameaça mais imediata à neutralidade, mas está longe de ser a única. Em uma palestra recente sobre o assunto, o comissário de comunicações dos Estados Unidos, Mignon Clyburn, qualificou a internet como um mercado para a diversidade, "não apenas de raças e gêneros, mas também de ideias e conteúdo".

É uma explicação sucinta para entendermos por que a luta pela neutralidade da rede é tão importante. Ela vai ditar o futuro da relação entre artistas e fãs, e pode determinar se artistas sem o status de um U2 poderão finalmente se libertar do controle corporativo.

Greg Kot é crítico de música do jornal Chicago Tribune.

Nenhum comentário: