Estranhos no paraíso do Parque Nacional da Chapada Diamantina

Morro do Pai Inácio, um dos pontos de visão mais privilegiada do Parque Nacional
"Bem no centro geográfico da Bahia convivem caatinga, cerrado e mata atlântica, cachoeiras, montanhas, rios e lagoas. Mas ecoturismo, agronegócio e lixo não podem coexistir 

Bruno Cirillo, RBA

Localizada no centro geográfico da Bahia, com 152 mil hectares, a Chapada Diamantina é uma das 313 unidades de conservação federal, que ocupam cerca de 9% do território nacional. Sua beleza reside no fato de abrigar uma cadeia de montanhas, a Serra do Sincorá, com espécies endêmicas – dessas que só se encontram lá – de plantas e animais, na intersecção entre três ecossistemas: cerrado, caatinga e mata atlântica.

Alexandre, presidente do GAL: “Lixão constrange as pessoas que vêm aqui atrás de um paraíso”
É onde está, por exemplo, o famoso trekking pelo Vale do Pati, considerado um dos mais bonitos do mundo. Depois de todos os danos ambientais deixados pelo garimpo, como a destruição dos rios, as mais de 20 cidades encravadas na região precisam encarar a situação ecológica para não perder o movimento do século 21.



Cânions, vales e campos rupestres compõem a região, banhada por rios que a fazem um oásis no meio do sertão, numa geografia rara que leva muitos viajantes a considerar a Diamantina a mais bela das chapadas brasileiras. Gente do mundo inteiro, especialmente franceses e alemães, passa dias se aventurando pelas trilhas de Lençóis, Palmeiras e Andaraí, entre outras cidades que não ficam para trás em aspectos históricos e culturais.

A reserva natural tem ainda uma biodiversidade de suma importância: pelo menos 400 tipos de plantas, como a sempre-viva, que, mesmo arrancada do solo para a fabricação de buquês, jamais apodrece. Ela pode ser encontrada ao redor de Mucugê, um município bastante procurado pelos turistas, onde está a Cachoeira de Cristal, com 70 metros de altura e grandes poços em sua base.

O visitante chega a Lençóis por uma estrada que parte da BR- 242, rota mais importante entre Salvador e Brasília. A proximidade com a cidade mais bem preparada para acolher os forasteiros, porém, começa a misturar expectativas. A primeira, claro, é deixar as malas e planejar os roteiros, como a subida ao Morro do Pai Inácio, de onde se tem uma das visões mais deslumbrantes do Parque Nacional da Chapada Diamantina. Mas quando se está próximo da cidade com a maior oferta de agências, restaurantes e hospedagens da região vê-se logo à esquerda entulhos nas margens de uma saída de terra. E quem entrar por esse caminho vai deparar com um cenário surpreendentemente aterrorizante, em se tratando de um estandarte do ecoturismo brasileiro: montanhas de lixo erguem-se por toda parte num vasto terreno escavado, onde reinam moscas e urubus.

Em meados de outubro, o Lixão da Capitinga pegava fogo às portas da antiga capital do diamante. A fumaça invadia a pista. O lençoense Edivaldo “Di” Soares, 52 anos, há 20 trabalha no local catando plástico para vender a atravessadores. E acusa um rapaz que passava de bicicleta pela origem do incêndio. “Os órgãos públicos não têm muito interesse pela situação do lixo em Lençóis”, ele diz, abanando-se com um chapéu de palha para afastar os insetos. Di estimou sua capacidade de coleta em duas toneladas por mês, ante as mais de dez toneladas trazidas diariamente pelos caminhões da prefeitura.

Ponto de partida. Lençóis é a cidade mais próxima do Parque da Chapada. Ali estão concentradas as pousadas
A 50 quilômetros dali, outro lixão é encontrado no município de Palmeiras, ao qual pertence a bucólica e mística Vila do Capão, ponto de partida para as trilhas que levam à Cachoeira da Fumaça (a segunda maior do Brasil, com 360 metros de altura) e aos campos rupestres do Vale do Pati. Não fosse o trabalho de dois grupos ambientalistas, o de Lençóis (GAL) e o de Palmeiras (GAP), que promovem a coleta seletiva e ações de reciclagem, essas duas cidades nem sequer conheceriam o conceito de destinação adequada do lixo, embora façam parte de um complexo turístico com vocação ecológica, para onde se dirigem milhares de visitantes por ano em busca de paisagens livres da intervenção humana. 

“A primeira reciclagem de Palmeiras aconteceu no dia 19 de novembro de 2009, dia do aniversário de Joás Brandão, fundador do grupo”, lembra a coordenadora de projetos do GAP, Yara Pereira Gonçalves. “O lixão constrange as pessoas que vêm aqui atrás de um paraíso e, quando chegam, encontram isso”, observa o presidente do GAL, Alexandre Emanuel. Com projetos de educação ambiental, as instituições sonham com a adaptação das cidades às exigências da Política Nacional dos Resíduos Sólidos, anunciada em 2010 com prazo para estar em plena vigência a partir de agosto deste ano. 

A lei exige das prefeituras, basicamente, uma destinação adequada para o lixo, com a construção de aterros sanitários e a criação de programas de coleta seletiva e reciclagem. “Não temos recurso para isso”, afirma o secretário do Meio Ambiente de Lençóis, Andrés Iglesias, ecoando o discurso proferido por muitas das administrações (60% do total no Brasil, cerca de 1.500 delas no Nordeste) que não cumpriram o prazo estabelecido pela legislação federal. 

A questão do lixo na Chapada tem um agravante: as cidades dependem da imagem ecológica para prosperar. Desde a decadência do garimpo de diamantes, que vigorou entre os séculos 19 e 20, parece não haver outra saída econômica para a região senão o ecoturismo, segmento que atrai algo em torno de 560 mil estrangeiros por ano ao país. “O ecoturismo deve ser levado em conta na elaboração de políticas públicas”, afirma Emanuel. “Problemas ambientais como o lixão, logo na entrada de uma cidade como Lençóis, podem afastar os visitantes”, comenta o chefe do Parque Nacional, Bruno Lentome, listando uma série de outras ameaças, como a extração ilegal de recursos naturais, o uso intensivo de agrotóxicos em áreas de cultivo e os terríveis incêndios florestais.

Fogo na serra, veneno no rio

Numa manhã de outubro, Lentome mostrava, nos fundos da sede do parque nacional, em Palmeiras, centenas de troncos de árvore empilhados, apreendidos recentemente numa operação policial. A exploração ilegal de madeira, especialmente nas serras de Andaraí (outra cidade turística, a 85 quilômetros ao sul de Lençóis), é um dos crimes ambientais mais recorrentes. No período de seca que precede o verão, contudo, os incêndios florestais são a maior ameaça – e segundo autoridades, 90% deles são criminosos.
Entre setembro e outubro, a Chapada Diamantina sofreu dez incêndios, depois de quase um ano sem ocorrências, de acordo com o Instituto Chico Mendes de Biodiversidade (ICMBio), responsável pela administração das unidades de conservação federais. Três deles consumiram parte das serras entre Lençóis e o Vale do Capão. “Estamos em plena temporada de incêndios”, diz o chefe do parque, que conta com as brigadas voluntárias e o suporte dos governos estadual e federal para combatê-los. Lentome lembra que o grande incêndio de 2008 queimou mais da metade da reserva natural. 

Os problemas com fogo, no entanto, são pontuais. Questões envolvendo a água, em certas áreas, têm maior gravidade por serem perenes e de proporções desconhecidas; a mais preocupante, segundo ambientalistas, está relacionada ao uso de agrotóxicos e à construção de barragens. Agraciado em 2012 por uma licença ambiental conjunta inédita no Brasil, o agropolo de Ibicoara e Mucugê, municípios localizados ao sul do parque nacional, ocupa um polígono de 700 mil hectares, vizinho à reserva ambiental, onde se produzem 500 mil toneladas de alimentos por ano, sobretudo batatas e tomates. Por se tratar de culturas que demandam uso intensivo de água e agrotóxicos, elas têm sido acusadas pela população de exaurir e contaminar recursos hídricos. “O nível de produtos químicos empregados na produção de batatas é gigante”, diz a coordenadora do grupo da Câmara Técnica de Meio Ambiente do Território de Identidade da Chapada Diamantina, Sirlene Rosa de Souza. As propriedades rurais da região representam um mercado de R$ 16 milhões anuais para a fabricante de defensivos agrícolas Bayer. Produtores investem em venenos de R$ 3.000 a 4.500 por hectare de batata e tomate plantados. 

Agora, as empresas Bagisa e Hayashi, atuantes há 20 anos no distrito de Cascavel, em Ibicoara, pretendem construir duas barragens e migrar a produção para a área dos Gerais de Piatã, berço das nascentes do Rio de Contas, na cidade mais alta do Nordeste, Piatã. Embora esteja localizado fora dos limites do parque nacional, o município apresenta o mesmo perfil (eco) turístico, além de ser reduto da agricultura familiar. “O lugar onde querem construir as barragens envolve três bacias hidrográficas: a de Contas, a do Cochó e a de São Francisco. Qualquer leigo sabe que não se deve fazer intervenções em áreas de nascente”, critica Sirlene. A bacia hidrográfica de Rio das Contas é um santuário aquático que ocupa 55 mil quilômetros quadrados e envolve 86 municípios, formando o segundo maior rio baiano. 

O comitê gestor responsável por essa bacia está elaborando um plano para que se conheça melhor a sua hidrografia. Antes da conclusão do estudo, os gestores esperam que as obras previstas para Piatã não sejam licenciadas, conforme deliberação encaminhada ao governo baiano e órgãos ambientais. Alguns desses órgãos e o próprio estado da Bahia são acusados pelo Ministério Público Federal pelos danos ambientais provocados na construção da Barragem do Apertado, em 1997, no Rio Paraguaçu — o maior da Bahia, que abastece 70% da água consumida em Salvador —, sem a realização prévia do estudo de impacto ambiental, em benefício do agropolo. 

A possível contaminação do lençol freático e dos rios dos Gerais de Piatã tem causado polêmica entre ambientalistas e a população local, que fez abaixo-assinado na comunidade de petições virtuais Avaaz, oem que contam com mais de 5 mil assinaturas contra o agronegócio em suas terras. “Temos travado uma verdadeira luta”, afirma Sirlene. Para uma funcionária do Instituto do Meio Ambiente e Recursos Hídricos da Bahia (Inema) que preferiu não se identificar, “o desenvolvimento da região vai ser do turismo ou do agronegócio. As duas coisas juntas não dá”.

Caires: projeto griô e pontos de cultura
Cultura contra o lixão 

Em meados de setembro, um grupo de jovens artistas apresentou o espet sáculo Por Amor à Vida: Lixão Não na Câmara de Lençóis. De maneira lúdica, denunciavam o crime ambiental escancarado na entrada da cidade. 

A peça já tinha sido exibida uma semana antes a um público de 100 pessoas, que assinou uma ação civil pública exigindo da prefeitura o encaminhamento do Plano Integrado de Gestão de Resíduos Sólidos (PIGRS), aprovado pelos parlamentares em 2010 – o documento estabelece diretrizes para que o município resolva a questão do lixo. Numa sessão plenária do dia 27, os nove vereadores do município endossaram, em ofício, a demanda popular, aumentando a pressão sobre o Executivo.

Por trás da ação, está a instituição de cultura mais forte de Lençóis, Grãos de Luz e Griô. Inspirado na tradição dos griots – comunicadores sociais africanos que viajam por vilarejos contando histórias e transmitindo conhecimento por meio da fala desde tempos remotos até os dias atuais –, o projeto se baseia numa pedagogia que remete a Paulo Freire, voltada à valorização de identidades e saberes regionais, em diálogo com a educação formal.

Lilian: criando referência em educação
A ONG mantém um centro de formação de jovens nas áreas de teatro, música e audiovisual, com 50 alunos e alcance a mais de 500 crianças e jovens lençoenses em situação de baixa renda. Conta com apoio do Ministério da Cultura e de 24 deputados ligados à Frente Parlamentar de Cultura, que assinaram projeto de lei propondo a pedagogia griô como política pedagógica nacional (PL 1.786/11). 

“Criamos uma referência em educação. As comunidades definem quem são seus mestres griôs, e eles criam, junto às escolas, projetos em que dialoguem a tradição oral e a educação formal”, explica Líllian Pacheco, fundadora do Grãos de Luz e Griô junto com seu marido, Márcio Caires, expresidente do Fórum dos Conselhos Estaduais de Cultura. Eles articulam cerca de R$ 500 mil por ano para tocar seus projetos – entre 2008 e 2012, além deste valor, obtiveram R$ 8 milhões para o programa Ação Griô Nacional, que fomenta a tradição oral em 130 pontos de cultura e está em diálogo com 600 escolas, com alcance direto a 750 pessoas (griôs e aprendizes) no Brasil.

A influência do projeto em Lençóis ficou provada com a reação da prefeitura, que alguns dias após o espetáculo contra o lixão se reuniu para discutir a criação de um novo PIGRS. Contudo, os manifestantes pediam a retomada do plano que já existe. “Lençóis já tem um plano para os resíduos sólidos, e a prefeitura está se recusando a abri-lo para nós. Queremos um programa de ações com base nesse plano que já existe”, criticou Líllian. Esta não foi a primeira vez que a cultura se manifestou. 

Alunos do Grãos de Luz e Griô produziram, em 2013, um pequeno documentário sobre a Fonte da Muritiba, canalizada por garimpeiros no final do século 19, mas que secou misteriosamente no ano de 2011. O caso levou o Ministério Público da Bahia a abrir um inquérito, em 15 de maio deste ano, para apurar se ações de propriedades saturaram o curso do manancial ou se houve processo natural. “A perícia vai apurar se as causas foram humanas”, disse o promotor de Justiça de Lençóis, José Reis Neto. Nos azulejos de onde funcionava o bebedouro público ligado à antiga fonte, uma frase escrita em tinta vermelha, já quase apagada pelo tempo, ainda indaga: “Cadê a água da Muritiba?”

Nenhum comentário: