Bicicletas 'subversivas' feitas de lataria de carro fazem sucesso na Espanha

Projeto de fazer bicicletas do ferro-velho partiu de agência de publicidade espanhola
"Dezenas de milhares de carros acabam virando ferro-velho em todo o mundo e boa parte desse material é simplesmente desperdiçado. Mas não para o publicitário espanhol Francisco Cassis e seus colegas, que transformam ferro-velho em bicicletas.



O projeto Bicycled, sediado em Madri, é um trocadilho com "bicicleta" e "reciclagem". A ideia nasceu de uma parceria informal entre a agência de publicidade Lola Madrid, onde Cassis trabalha, e uma loja de bicicletas da capital espanhola.


"Às vezes, nossos funcionários talentosos têm ideias maravilhosas que não estão relacionadas com publicidade, e para isso nós criamos um departamento especial que tenta dar vida a essas ideias", diz ele.

O projeto é baseado no conceito de "upcycling" – de reaproveitar lixo, transformando-o em outros produtos. Alguns sites da internet, como o Etsy.com, se dedicam a comercializar exclusivamente produtos desse tipo.

Subversivo

Objetos feitos de coisas que já perderam o uso não são novidade; artesãos, por exemplo, transformam garrafas de vinho em porta-velas. Mas agora o conceito vem tomando uma escala industrial.

No Quênia, as sandálias Akala são confeccionadas a partir de pneus velhos. Em Mumbai, o empreendedor Anu Tandon Vieira criou o "Retyrement Plan", uma linha de móveis também feita também a partir de pneus velhos.


Em Ruanda, a Angaza Limited transforma banners e telas de vinil em bolsas estilosas. No Reino Unido, o francês Gaspard Tiné-Berès fez fama com o Short Circuit, que dá vida nova a vários utensílios de cozinha.

O projeto Bicycled ainda contém uma certa dose de ironia. Nada é mais subversivo do que transformar um carro – uma máquina de poluição – justamente na sua alternativa mais ecológica: uma bicicleta.

"Uma bicicleta feita de carros abandonados é uma bicicleta com uma opinião. É essa novidade que faz dela especial", diz Cassis.

Parte do apelo de mercado do produto é que não existe nenhuma bicicleta igual a outra nesta linha. Cada parte da bicicleta é feita a partir do material à disposição – que varia em cada momento de confecção. Então, se a fórmula é sempre a mesma, é impossível repetir os componentes.

Vítima do sucesso

A resposta dos consumidores no famoso festival de tecnologia SXSW, no Texas, foi excelente. Foram 7 mil consultas e pedidos do produto – entre compradores e curiosos. Nem mesmo o alto preço – cerca de US$ 800 (R$ 2 mil) – afastou o interesse da maioria, segundo Cassis.

"A reação geral de todos foi: 'parabéns, é uma ideia ótima. Eu quero uma'."
Mas o próprio sucesso do produto é um desafio. Cada bicicleta pode levar até três meses para ser confeccionada, já que é preciso derreter o metal do ferro-velho e transformá-lo nas partes. Com 7 mil consultas, fica claro que a demanda não será atendida logo.

"Se você quer vender algo como 500 ou mil bicicletas, com cada uma levando três meses para ser feita, vamos enlouquecer. Então acabamos tendo que dar uma parada no projeto até descobrirmos uma forma de acelerar a produção."
O perigo é que se a resposta para esse dilema não surgir logo, o interesse do público pode cair. Cassis acha que os consumidores não estão interessados apenas na bicicleta – eles querem ter uma história para contar e dizer que participaram de um projeto importante.

Atender à demanda é um problema, mas a oferta de materiais não será um desafio. A agência ambiental europeia estima que 17 milhões de carros virarão ferro-velho no continente ao longo de 2015."

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