Freio ao tráfico de vida silvestre é fundamental para a biodiversidade

Os rinocerontes brancos da África do Sul já não correm perigo de extinção após intensos esforços de conservação. Foto: Kanya D’Almeida/IPS
Stella Paul, da IPS / Envolverde

'Maheshwar Basumatary, de 33 anos, por mais de cinco anos ganhou a vida matando animais selvagens nas florestas protegidas do Parque Nacional de Manas, uma reserva de tigres e elefantes na fronteira entre Índia e Butão que foi declarada Patrimônio da Humanidade pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco).

Mas, em 2005, Basumatary entregou sua arma à polícia e desde então se dedica a cuidar de filhotes abandonados de rinocerontes e de leopardos. Agora ele trabalha para o Fundo Internacional para o Bem-Estar Animal e é um símbolo da conservação da vida silvestre. Incorporar a população local à proteção da fauna é uma forma eficaz de frear a caça ilegal, o contrabando e a venda ilegal de animais, afirmou à IPS Maheshwar Dhakal, do Ministério de Ambiente e Conservação dos Solos do Nepal.

No contexto da 12ª Conferência das Partes (COP 12) do Convênio sobre a Diversidade Biológica (CDB), que começou dia 6 deste mês e termina hoje nesta cidade sul-coreana, Dhakal afirmou que a pobreza e a perspectiva de maiores rendas levam os habitantes locais ao crime ou a serem cúmplices de crimes contra a vida silvestre. “Os esforços de conservação também devem gerar oportunidades de subsistência dentro das populações locais”, recomendou.

“Todos querem ganhar mais e viver bem. Se você encontra uma maneira de incentivar a proteção da vida silvestre, as pessoas acompanharão”, assegurou Dhakal, cujo país se aproxima rapidamente da meta de “caça ilegal zero”. A caça e o comércio ilegais da vida silvestre são uma ameaça universal, que coloca em risco de extinção espécies inteiras e provoca perdas econômicas.

Segundo o mais recente informe de situação da CDB, Perspectivas da Diversidade Mundial 4 (GBO 4), o tráfico de vida silvestre movimenta cerca de US$ 200 bilhões por ano.

O negócio ilícito também prospera na Ásia, onde representa aproximadamente US$ 19 bilhões anuais, segundo a Rede de Controle da Vida Silvestre da Associação de Nações do Sudeste Asiático. As autoridades confiscam periodicamente contrabando de peles e outras partes de animais como crocodilos, serpentes, tigres, elefantes e rinocerontes. A matança de tigres e rinocerontes é uma preocupação específica na região, já que ambos correm risco iminente de extinção.

Um dos maiores campos de extermínio dos caçadores furtivos é o Parque Nacional Kaziranga, no nordeste da Índia, também declarado Patrimônio da Humanidade pela Unesco e onde se encontram dois terços dos grandes rinocerontes unicórnios que restam no mundo. Em 2013, havia 2.553 desses animais no Parque, mas os caçadores mataram 126 nos últimos 13 anos, segundo o ministro de Ambiente e Florestas do Estado, Rakibul Hussain. O Parque conta com a maior densidade de tigres em todo o mundo e em 2006 foi designado oficialmente como uma reserva desses felinos.

Também existe um vínculo direto entre o tráfico de animais e os conflitos políticos, segundo um informe conjunto do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) e a Interpol, que calcula o volume exato desse comércio ilegal em US$ 213 bilhões ao ano. Grande parte desse dinheiro “ajuda a financiar organizações criminosas, insurgentes e terroristas, ameaçando a segurança e o desenvolvimento sustentável de muitos países”, diz o informe. Vários grupos insurgentes da África central e ocidental são financiados com o comércio ilegal de animais e de madeira, incluindo a venda de marfim, e recebem entre US$ 4 milhões e US$ 12 milhões por ano, segundo o estudo.

Outro informe divulgado em fevereiro pela organização independente britânica Chatham House, também conhecida como Instituto Real de Estudos Internacionais, aponta o exemplo do extremista Exército de Resistência do Senhor (LRA), que extrai as presas de elefantes na República Democrática do Congo para trocar por armas de fogo e munições com soldados sudaneses ou caçadores ilegais. Mas o problema não acaba aí.

Maadjou Bah integra a delegação na COP 12 da Guiné, país da África ocidental onde em março surgiu um foco de ebola que, após sua passagem pelas vizinhas Libéria e Serra Leoa, matou quatro mil pessoas até agora. Bah explicou à IPS que a caça e o comércio ilegais de espécies silvestres aumenta a possibilidade de o vírus do ebola se propagar para outros países. Embora o governo da Guiné tenha denominado como área “protegida” 30% de suas florestas, as fronteiras são porosas e o tráfico é uma ameaça contínua.

O ebola é transmitido pelos primatas e morcegos frutíferos. Como a venda desses morcegos integra a cadeia mundial do tráfico ilegal de vida silvestre, é possível que o vírus chegue além das fronteiras onde se concentra a epidemia atualmente, explicou Anne Helene Prieur Richard, diretora do Diversitas, um instituto de pesquisa da biodiversidade com sede em Paris. “Não o sabemos com certeza científica, já que há uma brecha de conhecimento. Mas, sem dúvida, o risco existe”, esclareceu à IPS.

A caça ilegal é em parte consequência da lentidão na aplicação da lei, segundo o brasileiro Braulio Ferreira de Souza Dias, secretário-executivo do Convênio sobre a Diversidade Biológica. “A sua aplicação deve ser uma prioridade dos governos”, afirmou à IPS. “Isso pode ser alcançado, entre outros métodos, proporcionando às forças da ordem a capacitação e o equipamento necessários para reprimir a atividade ilegal. Os guardas florestais, por exemplo, devem estar devidamente equipados, técnica e financeiramente, para prevenir o delito”, acrescentou.

“Há uma necessidade de capacitar as unidades da ordem pública”, explicou Dhakal. “Mas isso não significa apenas participar de painéis e capacitações. Significa armas, ferramentas e tecnologias”, acrescentou. “Devem ter armas adequadas, bem como ferramentas para recopilar provas e registros. Precisam de transporte e comunicações móveis para agirem rapidamente e com acerto. Sem isso, apesar das detenções, não haverá condenações devido à falta de evidências”, ressaltou.

Isso é especialmente importante nas florestas em fronteiras, onde a falta de cercas adequadas permite que os caçadores ilegais se desloquem livremente entre os países. Envolverde/IPS"

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