Como fazer para o cérebro resistir a isolamento extremo?

Efeito do isolamento no cérebro conhecido mas não explicado
"Sarah Shourd passou a ter visões dois meses depois de ser presa. Ela ouvia passos fantasmas, via luzes piscando e passava a maior parte do tempo debruçada na porta, tentando ouvir os sons do lado de fora.



Ela foi uma das turistas americanas presas em 2009 enquanto escalava montanhas na região curda do Iraque. Os turistas cruzaram a fronteira do Irã e acabaram presos por espionagem.

Shourd passou 10 mil horas sem quase nenhum contato humano antes de ser solta. Ela conta que a pior experiência foram as alucinações.

"Na minha visão periférica, eu via luzes piscando. Eu virava a cabeça e não havia nada ali", conta ela. "Em alguns momentos eu ouvia alguém berrando, e só depois que sentia a mão de um dos guardas mais amigáveis me chacoalhando que eu percebia que os berros eram meus."

Vivendo 'como um animal'

Os cientistas já conhecem há muito tempo os efeitos nocivos que o isolamento tem no cérebro humano. Pessoas muito solitária possuem pressão sanguínea maior, são mais vulneráveis a infecções e têm mais chances de sofrer com demência e Alzheimer. Sono, concentração e raciocínio lógico também são afetados.

Prisioneiros perigosos em solitárias ficaram ainda mais agressivos
Os mecanismos por trás disso ainda são pouco claros, mas especialistas sabem que o corpo humano libera vários hormônios de estresse que causam inflamações. Para nossos ancestrais mais antigos, isso podia ser útil, já que um ser humano isolado dos demais precisava de maior proteção do seu próprio corpo para lidar com os riscos da natureza. Mas para a maioria das pessoas de hoje em dia, essa dose extra de hormônios é nociva.

Os maiores efeitos estão no cérebro. As pessoas perdem o sentido que diferencia a noite do dia. Em 1961, o geólogo francês Michel Siffre liderou uma expedição de duas semanas para estudar uma geleira subterrânea nos Alpes Franceses, e acabou ficando dois meses.

Fascinado com os efeitos da escuridão na biologia humana, ele decidiu abandonar seu relógio e "viver como um animal". Em testes com sua equipe de volta à superfície, ele descobriu que levou cinco minutos para contar o que para ele seriam 120 segundos.

O sociólogo italiano Maurizio Montalbini chegou à mesma conclusão em 1993, quando passou 366 dias em uma caverna na Itália. O experimento era parte de um programa da Nasa para astronautas. O sociólogo achou que haviam se passado apenas 219 dias.

Os tempos de sono também mudam e um ciclo completo de dia e noite dura 48 horas - 36 de atividade e 12 de sono. Mas ninguém sabe explicar direito porque isso acontece.

Ética duvidável

Ambas as experiências também revelaram instabilidade mental. Na década de 1950 e 1960, foram feitos experiências pelos governos do Canadá e dos Estados Unidos - devido a rumores de que chineses estavam usando confinamento solitário para "lavagem cerebral" de prisioneiros americanos capturados na Guerra da Coreia.

Os testes feitos por americanos e canadenses são questionados até hoje por sua ética.

O centro médico da Universidade McGill, de Montreal, pagou voluntários para passarem semanas sozinhos em cubículos isolados acusticamente, e sem nenhum contato humano. Todos os sentidos humanos foram abafados - com artefatos como óculos e luvas de algodão.

Poucas horas de confinamento nesta situação já deixou os voluntários muito agitados. No começo, eles cantavam e falavam consigo mesmos, para quebrar o tédio. Mas com o tempo, foram ficando mais ansiosos e emocionais. O desempenho mental, medido em testes matemáticos, também ficou comprometido.
Solidão extrema provoca distúrbios hormonais com consequências negativas para a maioria
Mas o pior dos efeitos foram as alucinações. Um dos voluntários via apenas cachorros. Outro disse ter visto bebês. Algumas das alucinações eram extremas. Um homem disse ter sentido ser atingido por balas de borracha. Outro falou que se sentia levando choques elétricos.

As experiências deveriam durar algumas semanas, mas precisaram ser interrompidas em apenas dois dias. A mais longa durou uma semana.

Explicações?

Os especialistas acreditam que o cérebro humano está condicionado a receber muitas informações e sensações. Estímulos auditivos, visuais e de tato acontecem em vastas quantidades ao longo do dia.

Quando esses estímulos são reduzidos, o sistema nervoso e o cérebro continuam operando a todo vapor - mas sem nenhuma informação nova. Depois de um tempo, o cérebro tenta criar algum tipo de padrão, ou compreender tudo ao seu redor.

Sem estímulos para processar, o cérebro acaba "criando imagens", gerando um mundo de fantasia.

Especialistas também acreditam que os estados emocionais só fazem sentido devido ao contato humano. Medo, raiva, ansiedade e tristeza nos ajudam a nos adaptar à sociedade. Mas sem ninguém ao nosso redor, as emoções ficam distorcidas, e não obedecem a uma lógica.

O pesquisador Terry Kupers, do Wright Institute na Califórnia, entrevistou 25 mil prisioneiros em isolamento máximo nos Estados Unidos. Ele conta que muitos sofrem com paranoia e ansiedade extremas - e isso os faz ainda mais agressivos.

Sobrevivência

Há casos de pessoas que conseguiram lidar relativamente bem com períodos de extremo isolamento. Cientistas tentam estudar esses casos para entender se existe algum mecanismo ou estratégia de defesa possível.
Uma das formas de lidar melhor com o confinamento é estar preparado para ele. Susan Shourd, por exemplo, estava nas piores condições para lidar com isso, pois foi presa subitamente e nunca soube o que viria pela frente.

Alucinações pesadas - que distorcem a realidade - foram relatadas por várias pessoas
Mas há casos bem-sucedidos. Hussain al-Shahristani é o atual vice-ministro da Energia do Iraque. Ex-conselheiro nuclear de Saddam Hussein, ele passou dez anos na solitária da prisão de Abu Ghraib, em Bagdá. Ele manteve sua sanidade inventando problemas matemáticos - que depois tentava resolver.

A acadêmica Edith Bone passou sete anos em uma solitária na Hungria, depois da Segunda Guerra Mundial. Ela construiu um abacus com migalhas de pão dormido, e o usou para fazer um inventário de todas as palavras que sabia falar, em seis línguas diferentes.

Esse tipo de disciplina mental é mais presente em pessoas que tiveram alguma experiência militar.

Disciplina militar pode facilitar a sobreviver
O senador americano John McCain é considerado por muitos um exemplo de como resistir ao isolamento. Nos cinco anos que passou preso no Vietnã, ele nunca cedeu às pressões de seus interrogadores para dar informações. Mas ele conta que a parte mais difícil foram os dois anos de solitária.

"É algo terrível a solitária. Ela destroi seu espírito e enfraquece sua resistência com mais eficiência do que qualquer outro método. O desespero é imediato."

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