Mobilizadores em rede

Paula Lago, Envolverde

"Tudo começou mesmo na rua, mas não no último junho, com as grandes manifestações que ocorreram pelo país. Foi em 2009.

Ouvindo música durante caminhadas em Buenos Aires, ele teve as primeiras ideias para a Meu Rio. Pensou na colega do ensino médio, que estava no Brasil. Ligou e, em uma hora de conversa pelo Skype, a amiga comprou a ideia, ainda que tenha achado a apresentação algo confusa. “No outro dia, ela já estava com quase tudo esquematizado”, lembra Miguel Lago, 25, administrador público. Ela é Alessandra Orofino, 24, economista.

A divisão de tarefas segue essas características de ambos. Miguel é o diretor-presidente e tem como atribuição lidar com as relações externas entre a Meu Rio e outras instituições. Alessandra, a diretora-executiva, lidera a equipe e as relações internas.

“Existe muita sintonia entre eles”, conta Rita Lamy, 32, ex-parceira. De fato.
Ao serem questionados, em separado, sobre uma situação curiosa que tenham vivido em comum, lembraram-se da mesma: quando, no Lycée Molière, escola francesa no Rio, lideraram uma greve de alunos contra o corte de aulas optativas, imposto por redução dos repasses.

Eles dizem que todos os alunos do ensino médio aderiram à ocupação do pátio. O diretor recuou da decisão.

Adultos, suas ações são mais complexas, e o alcance, mais amplo: evitaram a demolição de uma escola, suspenderam uma sessão na Assembleia Legislativa do Rio em que seria votado um projeto de alteração na legislação ambiental e revogaram decreto que proibia bailes funks, por exemplo.

Entre as plataformas oferecidas no site está a Panela de Pressão, onde o carioca pode criar uma campanha e, com um clique, enviar mensagem para a autoridade que possa resolver o problema ou ligar diretamente para ela.
Esse empoderamento dá resultados. A professora Aline Mora, 34, da Escola Municipal Friedenreich, participou da campanha contra a derrubada do prédio e percebe a diferença. “Nunca tinha ido a manifestações. Entrei nessa briga pela escola e passei a sentir que podemos lutar pelo que queremos.”

Alessandra pensa bem antes de falar e organiza os post-its da reunião com a equipe. Diz que não tem medo de falhar nem de ouvir “não”. Uma vez, em um voo do Rio para Nova York, apresentou-se a Camila Pitanga e a convenceu a protagonizar um vídeo para a Meu Rio. A atriz participa de ações até hoje.

Miguel é botafoguense e não gosta de fazer coisas por obrigação. Foi assediado por partidos para se candidatar e declinou. Diz que as propostas eram boas, mas que “perdemos a efetividade quando estamos dentro da política”.

Com passagens por instituições de ensino de renome internacional, ela, em Columbia (EUA), ele, no Institut d’Études Politiques de Paris, afirmam ter recusado ofertas com ótimos salários. “Nunca quis trabalhar em empresa privada. Queria testar outras coisas. Também não queria entrar diretamente na vida acadêmica”, avalia Miguel. “Sempre disse que não trabalharia em algo que não fizesse sentido para mim. Queria que meu talento fosse direcionado para coisas das quais eu pudesse me orgulhar”, revela Alessandra.

Tempo Curto

Manter a Meu Rio em ação toma tempo —trabalham 16 horas por dia. Entre as pessoas próximas aos dois, essa é a queixa. Lembrada por Hugo Sassaki, 27, o namorado de Alessandra, que afirma que só não ganhou um “upgrade” para marido por falta de tempo dela. E por Antonio Engelke, 36, sociólogo, que conta sentir saudade de receber convites para um chope.

Os empreendedores, no entanto, tentam dar conta de tudo. Alessandra pratica ioga e “stand-up paddle” (esporte com prancha e remo) e desliga o telefone após as 23h. Miguel põe o celular para despertar a cada quatro horas, para se lembrar de comer fruta ou chocolate, e gosta de ir à praia dar um mergulho no fim de semana. Mas consente: “Nunca o tempo passou tão rápido para mim”.

* Paula Lago: enviada especial ao Rio.

** Publicado originalmente no site Prêmio Empreendedor Social/Folha de S. Paulo.

(Prêmio Empreendedor Social/Folha de S. Paulo)

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