Instituições científicas cobram ações para lidar com mudanças climáticas

Jéssica Lipinski, Instituto CarbonoBrasil 

'Nesta quinta-feira (27), dois respeitados centros científicos, a Sociedade Real de Londres e a Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos, divulgaram uma publicação na qual afirmam que “agora é mais certo do que nunca, baseado em muitas linhas de evidência, que os seres humanos estão mudando o clima da Terra”.
O documento, Climate Change: Evidence and Causes (Mudanças Climáticas: Evidências e Causas), aponta que as alterações no clima são uma das questões que definem a nossa época, e que, apesar de já serem inevitáveis, mais esforços são necessários para reduzir as emissões de gases do efeito estufa para evitar impactos severos nos ecossistemas e na vida humana.

O texto também ressalta que os governos não podem adotar uma atitude passiva em relação às mudanças climáticas. “Cidadãos e governos [...] podem esperar que mudanças ocorram e aceitar as perdas, danos e sofrimento que surgirem. [Ou] eles podem se adaptar às mudanças reais e esperadas tanto quanto possível”, afirma o documento.

As instituições enfatizam ainda que, apesar da desaceleração do aquecimento global ocorrida nos últimos 15 anos, não se pode negar a veracidade das mudanças climáticas, até porque há explicações para essa desaceleração e outras evidências que comprovam as transformações no clima.

O que costuma se chamar de ‘hiato’ ou ‘pausa’ no aquecimento global é o fato de que, nos últimos 15 anos, o aumento das temperaturas desacelerou. Simulações sugerem que o aquecimento deveria ter continuado em um ritmo médio de 0,21ºC por década entre 1998 e 2012, mas o que se observou é que o fenômeno durante esse período foi de apenas 0,04ºC por década.

“Tendências climáticas relevantes não devem ser calculadas com períodos de menos de 30 anos. Uma desaceleração em curto prazo no aquecimento da superfície da Terra não invalida nossa compreensão de mudanças de longo prazo nas temperaturas globais decorrentes de alterações induzidas pelo ser humano nos gases do efeito estufa.”

Os acadêmicos informaram ainda que a concentração de dióxido de carbono na atmosfera é a maior em pelo menos 800 mil anos e 40% mais alta o que era no século XIX. Além disso, a velocidade do aquecimento global está agora dez vezes mais acelerada do que no final da última Era do Gelo, o que representa o período mais rápido de mudanças de temperatura em escala global na história. Isso deve fazer o mundo aquecer entre 2,6ºC e 4,8ºC até o final deste século.

 “As evidências são claras. Contudo, devido à natureza da ciência, nem todos os detalhes são totalmente estabelecidos ou completamente confirmados. Nem todas as questões pertinentes foram ainda respondidas.”

“Algumas áreas de intenso debate e pesquisas em curso incluem a ligação entre o calor dos oceanos e a taxa de aquecimento, estimativas de quanto aquecimento esperar no futuro e conexões entre mudanças climáticas e eventos climáticos extremos”, conclui o documento.

Ondas de calor

Ajudando a esclarecer algumas dessas dúvidas, cientistas da Austrália, Canadá e Suíça apresentaram um estudo nesta quarta-feira (26) que indica que, apesar na desaceleração do aquecimento global nos últimos anos, os extremos de calor aumentaram em quase todas as partes do mundo.
O relatório sugere que as áreas da superfície da Terra com 10, 30 ou 50 dias de extremo calor por ano aumentaram desde 1997 em relação à média anterior, algumas vezes mais do que dobrando.

Os maiores ganhos ocorreram no Ártico e nas latitudes médias. “Não apenas não há pausa na evolução dos extremos diários mais quentes na superfície, mas eles também não diminuíram em relação ao registro de observação.”

Isso é particularmente preocupante porque os extremos são o que mais importam para a agricultura, vida selvagem e seres humanos, já que podem aumentar as taxas de óbito, especialmente entre os idosos, prejudicar colheitas e tornar o fornecimento de água e energia mais difícil.

Alguns exemplos são a onda de calor na Rússia em 2010, que matou mais de 55 mil pessoas, a onda de calor na Europa em 2003, que matou 66 mil pessoas, e o recorde de temperatura de 53,3ºC no Paquistão em 2010, o mais alto da Ásia desde 1942.

Embora os pesquisadores ainda não saibam explicar exatamente por que os extremos de calor continuaram a aumentar apesar do hiato, uma hipótese é que os oceanos tenham absorvido o calor da atmosfera e reduzido o aquecimento global geral, mas a terra continuou exposta aos extremos.

Segundo eles, não há evidências de que esse aumento nos extremos seja temporário.

“Não há razão para esperar que [a tendência de mais extremos de calor] vá parar”, observou a autora Sonia Seneviratne, do Instituto para Ciência Atmosférica e Climática de Zurique, à Reuters."

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