Ventos do Pacífico podem ser responsáveis por 'hiato' no aquecimento global

"Estudo sugere que grande aceleração dos ventos alísios está empurrando o calor da superfície para águas mais profundas dos oceanos

Jéssica Lipinski, Instituto CarbonoBrasil 

Nos últimos anos, apesar da ascensão contínua das emissões de gases do efeito estufa (GEEs), pesquisas apontam para uma desaceleração no aquecimento global, fazendo com que muitos questionem se as mudanças climáticas estão realmente ocorrendo. Mas um novo estudo indica que são os ventos do Oceano Pacífico que podem estar por trás dessa ‘pausa’ no aquecimento global.

O que costuma se chamar de ‘hiato’ ou ‘pausa’ no aquecimento global é o fato de que, nos últimos 15 anos, o aumento das temperaturas desacelerou. Simulações sugerem que o aquecimento deveria ter continuado em um ritmo médio de 0,21ºC por década entre 1998 e 2012, mas o que se observou é que o fenômeno durante esse período foi de apenas 0,04ºC por década.

Segundo a nova pesquisa, os chamados ventos alísios – ventos úmidos que sopram regularmente a partir das regiões subtropicais em direção ao Equador – aceleraram nos últimos 20 anos, ‘empurrando’ o calor da superfície para águas mais profundas dos oceanos e trazendo águas mais frias para a superfície.

Uma das razões pelas quais os ventos ficaram mais fortes pode ser a repetição de um padrão meteorológico chamado Oscilação Interdecadal do Pacífico (IPO). Em seu estado atual, a IPO pode produzir ventos mais fortes e resfriar a superfície das águas.

Isso confirma a teoria de que as águas dos oceanos estão absorvendo a maior parte do aquecimento vivenciado pelo planeta, e explica por que algumas regiões da Terra experimentaram um frio mais intenso nos últimos anos ou não apontaram um aumento nas temperaturas desde 2001.

“Os cientistas suspeitavam há muito tempo que a absorção extra de calor pelos oceanos tinha reduzido o aumento das temperaturas médias globais, mas o mecanismo por trás do hiato continuava incerto”, observou Matthew England, professor do Centro de Excelência para a Ciência do Sistema Climático do Conselho de Pesquisa Australiano e principal autor do trabalho.

Os cientistas envolvidos no estudo afirmam que é provável que esse ‘hiato’ no aquecimento global perdure até o final desta década, isso se os ventos alísios continuarem com a intensidade registrada nos últimos anos. Mas os pesquisadores explicam que, assim que esses ventos desacelerarem – e eles inevitavelmente retornarão ao normal –, a tendência de aquecimento deve retornar.

“Devemos ser bem claros: o atual hiato não oferece nenhum conforto. Estamos apenas vendo outra pausa no aquecimento antes do próximo aumento inevitável nas temperaturas globais”, alertou England.

Pesquisas anteriores sugeriam outra explicação para a desaceleração, de que talvez o planeta esteja absorvendo menos calor porque o sol está um pouco menos intenso, ou a poluição está refletindo mais o calor para o espaço.

Com todas essas hipóteses, os estudiosos afirmam que, na verdade, o aquecimento pode ser ainda maior, já que, pelos fatores apresentados, a desaceleração do calor deveria ser mais intensa.

“As pessoas ficam falando sobre o hiato, mas deveríamos estar falando de por que o mundo não esfriou na última década. Se fossem acrescentados todos esses fatores, o que se esperaria ver é um certo resfriamento”, explicou England.

Além de defender a existência do aquecimento global, alguns pesquisadores afirmam que essa nova descoberta sugere a relação entre as atividades humanas e o aquecimento. “Essas mudanças estão mascarando temporariamente os efeitos do aquecimento global provocado pelo homem”, comentou Richard Allan, professor de ciências climáticas da Universidade de Reading, no Reino Unido.

“É provável que a atual desaceleração seja apenas um adiamento temporário de aumentos rápidos nas temperaturas globais”, acrescentou Allan. O professor declarou que seria surpreendente se grandes mudanças na circulação atmosférica e oceânica nos últimos 20 anos não tivessem alterado os padrões meteorológicos.

O resultado do trabalho de England e seus colegas foi publicado neste domingo (9) no periódico Nature Climate Change."

Imagem: Gráfico destaca o "hiato" recente no aquecimento global / Met Office

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