Ilhas do Pacífico pedem ajuda diante da elevação do oceano

Líderes de países insulares querem ações mais ambiciosas para combater consequências do aquecimento global à medida que aumento do nível do mar afeta gravemente algumas ilhas; UE promete € 150 mil para Ilhas Marshall


Jéssica Lipinski, Instituto CarbonoBrasil

O Fórum das Ilhas do Pacífico (PIF) é uma das principais instituições políticas da região, e responsável por debater questões como as relações entre seus países-membros, economia e processos militares e de paz. Mas devido à delicada situação ambiental em que se encontram alguns estados insulares do Pacífico, a 44ª edição do encontro, que ocorre de terça-feira (3) a quinta-feira (5) em Majuro, capital das Ilhas Marshall, será dominada por um só tema: as mudanças climáticas.
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Nos últimos anos, diversos países da região, que são em grande parte constituídos por pequenas ilhas cujos pontos mais altos ficam apenas uns poucos metros acima do nível do mar, têm enfrentado problemas com a elevação do nível dos oceanos, responsável por enchentes, contaminação da água doce pela água salgada, inundação de plantações, diminuição da área habitável das ilhas etc.
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Entre as que já foram atingidas, estão as Ilhas Salomão, Kiribati e Tuvalu; agora, é a vez das Ilhas Marshall, um grupo de 29 atóis e ilhas de coral com 54 mil habitantes, que desde maio enfrenta uma seca prolongada, o que já fez o país declarar estado de desastre devido à falta de água potável. Estima-se que 6,4 mil pessoas estejam enfrentando escassez de água nas ilhas.

A situação é tão grave que há a possibilidade de os habitantes terem que deixar o local, se tornando refugiados climáticos. Infelizmente, essa não é a primeira vez que isso acontece nas ilhas do Pacífico. 
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“Se realmente tivermos que deslocar a população, Deus nos livre, então teremos que começar a pensar sobre quem vai ser responsável pelo que acontece à nossa nação, o que acontece à nossa soberania, e o que acontece à nossa cultura e tradição”, colocou Tony de Brum, vice-presidente das Ilhas Marshall, ao portal RTCC.
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Por isso, além de convocar os Estados-membros do PIF, a reunião também contará com a presença dos 13 Parceiros de Diálogo Pós-Fórum, entre os quais China, Estados Unidos e União Europeia.
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O objetivo é que o fórum termine com a assinatura da Declaração de Majuro para Liderança Climática, ressaltando o compromisso de diversos países de lidarem com as mudanças climáticas e seus impactos.
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A declaração foi emitida pelos líderes do PIF na última semana, e tem como meta gerar uma “nova onda de liderança climática” e estimular uma ação antes das tentativas de 2015 de negociar um acordo climático global.
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 Os membros do PIF querem, especificamente, que o texto reconheça que os atuais esforços para reduzir os gases do efeito estufa (GEEs) são insuficientes, e que há necessidade de um esforço global para reduzir a poluição. Além disso, os países insulares esperam que a liderança para diminuir as emissões de GEEs parta das grandes nações industrializadas, já que elas seriam as principais responsáveis pela liberação de CO2 na atmosfera.
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“Esperar por um novo acordo global em 2015 não será suficiente. Acelerar a ação climática agora, e bem antes de 2020, é essencial. Com os líderes globais programados para se reunirem em setembro de 2014, agora é a hora de criar nossa nova onda de liderança climática”, comentou Christopher Loeak, presidente das Ilhas Marshall e do PIF, ao RTCC.
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Na sessão de abertura do evento, os líderes dos estados insulares ressaltaram a gravidade da situação e reforçaram o pedido para que os países desenvolvidos reduzam suas emissões de carbono e sejam mais atuantes na ajuda aos estados insulares, enfatizando que a maioria das nações das Ilhas do Pacífico têm emissões negativas, já que seus oceanos e florestas atuam como sumidouros de carbono.
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A boa notícia é que a União Europeia apresentou os primeiros esforços para auxiliar as Ilhas Marshall: o bloco prometeu doar € 150 mil para ajudar o país a se recuperar da seca. O dinheiro será usado para a construção de 117 tanques de água, para reparar o sistema de coleta de água da chuva existente e para fornecer informações sobre higiene e saneamento básico.
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Mas, infelizmente, nem todas as outras nações industrializadas parecem igualmente comprometidas em discutir a questão do combate aos efeitos das mudanças climáticas nos países insulares. O secretário de Estados dos EUA, John Kerry, era esperado no PIF para debater a questão, mas enviou em seu lugar Sally Jewell, secretária do interior, para representar os norte-americanos.
Mesmo assim, os países desenvolvidos apresentam uma visão otimista sobre o combate às mudanças climáticas, afirmando que ainda há tempo para lidar com o problema. “Ainda é possível escolher um caminho diferente e esse é o momento em que precisamos que a liderança do Pacífico se una à comunidade científica”, observou Elisabeth Holland, que recebeu com o ex-vice-presidente norte-americano Al Gore o Prêmio Nobel em 2007 e é diretora do Centro do Pacífico para Desenvolvimento Ambiental e Sustentável na Universidade do Pacífico Sul.
Contudo, os representantes das Ilhas do Pacífico parecem mais pessimistas do que Holland a respeito da questão. “A situação é calamitosa. 

Simplesmente não há razão de falar de desenvolvimento sustentável se não conseguirmos reverter o impacto das mudanças climáticas”, alertou Enele Sopoaga, primeiro-ministro de Tuvalu, em meio a aplausos espontâneos dos participantes do PIF."
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Vídeo: ONG 350.org mostra os impactos da elevação do nível dos oceanos em Fiji.

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