Acidificação dos oceanos pode aumentar temperatura global


Novo estudo sugere que maior absorção de dióxido de carbono pelos oceanos pode levar a redução na produção de dimetilssulfeto, substância que, liberada na atmosfera, ajuda a refletir os raios solares e controlar o aquecimento

Jéssica Lipinski, Instituto CarbonoBrasil

Não é novidade que o aumento das emissões de gases do efeito estufa (GEEs) esteja levando a uma maior absorção do dióxido de carbono pelos oceanos, o que por sua vez está provocando a acidificação dos mares. Mas um estudo publicado nesta semana no periódico Nature Climate Change indica que essa acidificação, por sua vez, também pode estar contribuindo para potencializar as mudanças climáticas. 

O relatório afirma que essa resposta dos oceanos ao aumento dos GEEs na atmosfera pode aumentar as temperaturas em 0,5ºC a mais do que o esperado ainda neste século.

O processo funcionaria da seguinte maneira: o aumento dos GEEs na atmosfera levaria a uma maior absorção destes pelos oceanos, o que causa a acidificação dos mares. Essa acidificação, por sua vez, teria influência no fitoplâncton, que produz um componente chamado de dimetilssulfeto (DMS), que, quando lançado para a atmosfera, contribui para a formação de nuvens, que ajudam a refletir os raios solares e controlar o aquecimento global.

A acidificação contribuiria para reduzir o nível de DMS produzido pelos organismos marinhos; dessa forma, menos dimetilssulfeto vai parar na atmosfera, e, consequentemente, menos nuvens são formadas para bloquear os raios solares, permitindo que mais luz do sol aqueça a Terra.

Os oceanos, lagos e rios são a maior fonte natural de sulfeto, principalmente na forma de DMS, devido ao fitoplâncton que se encontra na superfície da água. Outras fontes de dimetilssulfeto são as cinzas de vulcões – basta lembrar que na erupção do vulcão Pinatubo, nas Filipinas, em 1991, milhões de toneladas DMS foram lançadas para a atmosfera, e as temperaturas médias globais diminuíram cerca de 0,5ºC durante quase dois anos – e a queima de carvão, porém essas fontes são muito prejudiciais ao meio ambiente e ao homem.

A pesquisa aponta, dessa forma, que as emissões de dimetilssulfeto podem cair cerca de 18% nesse século em relação ao período pré-industrial, devido ao fato de que a concentração de ácido dos oceanos deve dobrar ou triplicar, o que seria a maior mudança nos níveis de acidificação em 300 milhões de anos.
“O possível impacto climático desse mecanismo de acidificação oceânica deve ser considerado em projeções das futuras mudanças climáticas”, coloca o trabalho. Segundo o relatório, os atuais modelos, que não levam esse processo em consideração, podem estar subestimando as mudanças climáticas em 10% ou mais.

Para se ter uma ideia, em um cenário moderado do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC), que assume a não redução de emissões de GEEs, a temperatura média global deve aumentar entre 2,1ºC e 4,4ºC até 2100. Acrescentando os efeitos da acidificação na produção de DMS, essa elevação pode aumentar entre 0,23ºC e 0,48ºC.

Mas esse não é o único efeito prejudicial que a acidificação pode ter em nosso planeta. Outro estudo, também publicado nesta semana no periódico Nature Climate Change, avaliou os impactos da acidificação na vida marinha, prevendo que os crustáceos, tais como caranguejos e lagostas, serão relativamente mais resistentes ao aumento da acidificação nos oceanos.

Contudo, outros animais não devem ter a mesma sorte. Corais, moluscos e equinodermos, tais como estrelas-do-mar e ouriços-do-mar, experimentarão consequências piores, levando a uma alteração profunda nos ecossistemas, diz o trabalho. Já os efeitos nos peixes ficaram menos claros. Entretanto, “todos os grupos considerados serão impactados negativamente, embora de forma diferente, mesmo por uma acidificação oceânica moderada”, escreveram os autores.

“Já estamos vendo recifes de corais de águas mais quentes em retração devido a uma combinação de vários estressores, incluindo [aumento das] temperaturas. A acidificação dos oceanos ainda está em um processo inicial, [mas] agravará esses efeitos à medida que se desenvolve e fará mais espécies sofrerem”, comentou Hans-O. Pörtner, professor de biologia marinha do Instituto Alfred Wegener, na Alemanha, e um dos autores do estudo.

Para Liza Roger, doutoranda do Centro de Excelência para Estudos de Recifes de Corais da Austrália, a acidificação é considerada o “gêmeo do mal” das mudanças climáticas. “Seus efeitos são altamente complexos porque as respostas diferem significativamente entre as espécies. Estudos precisam observar a ligação entre acidificação oceânica e o aquecimento do oceano para compreender realmente a extensão dos possíveis impactos.”

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