Um mundo literalmente poluído


A Agência Internacional de Energia (AIE), que é em um órgão do sistema econômico, mostrou no último relatório chamado Panorama Global de Energia que as emissões de gases estufa subiram 1,4% e bateram novo recorde – 31,6 bilhões de toneladas de gás carbônico, metano e compostos nitrogenados. Por Najar Tubino

Najar Tubino, Carta Maior

Os números não mentem, embora as elites que comandam o planeta, cada vez mais embarcam na mentira deslavada. A Agência Internacional de Energia (AIE), que é em um órgão do sistema econômico, mostrou no último relatório chamado Panorama Global de Energia que as emissões de gases estufa subiram 1,4% e bateram novo recorde – 31,6 bilhões de toneladas de gás carbônico, metano e compostos nitrogenados. As emissões chinesas cresceram em 300 milhões de toneladas, embora cada chinês emita apenas 33% do seu equivalente norte-americano. As emissões dos EUA recuaram 200 milhões, consequência da menor atividade econômica e também pelo uso do gás, explorado do xisto, em substituição ao carvão. Os EUA produziam 50% da eletricidade em 1980 com usinas movidas a carvão, agora o número caiu para 37%.

A diretora executiva da AIE, Maria Vander Hoeven, disse na apresentação do relatório “que a mudança climática, para sermos bem francos, caiu para trás nas prioridades de políticas públicas, mas o problema não vai sumir, pelo contrário”.

O setor de energia responde por 2/3 das emissões de gases estufa. Pesquisadores das Universidades de Cambridge e Erasmus, recentemente divulgaram dados sobre 150 mil novos pontos de emissão de metano na Sibéria Oriental, onde as geleiras e o permafrost estão recuando. O metano é 25 vezes mais potente que o gás carbônico na retenção do calor. Para rechear um pouco mais a mistura tóxica que o planeta está envolvido, vou citar os dados de um artigo de Martin Wolf, editorialista do Financial Times, que é justamente o veículo que expressa a opinião dos banqueiros e chefes das grandes corporações, portanto, a chamada elite do sistema.

“- Um grupo especializado analisou os resumos científicos de 11.944 trabalhos sobre mudanças climáticas publicados entre 1991 e 2011, escrito por 29.083 autores, sendo 98,4% endossaram a tese de que o aquecimento global é provocado pelo homem (antropogênico) e 30% do CO2 na atmosfera é consequência da atividade humana”.

Metas nunca mais
Segundo ele os céticos venceram, porque as metas para 2020 dos países ricos em reduzir as emissões em 25 a 40% foram para o beleléu. Não serão cumpridas. E não dá nem para falar que as metas eram para os ingleses. A verdade é que os países ricos só estão preocupados com a recuperação das suas economias e com o padrão de vida das suas populações. A próxima conferência do clima acontecerá em 2015, na ex-cidade das luzes, onde a ministra do meio ambiente, Delphine Batho foi demitida em junho por falar abertamente contra a produção de energia elétrica a base de reatores nucleares, responsáveis por 75% do abastecimento na França. Paris não deverá nem receber os mandatários, depois do fiasco de Copenhague.

Em setembro, o Painel de Mudanças Climáticas ligado à ONU, o IPCC, publicará a primeira parte do seu novo relatório. Em 2007, eles informaram as lideranças do mundo inteiro, que o planeta corre um sério risco de aquecimento, deixando o equilíbrio de milhões de anos, com uma temperatura média na faixa dos 14 graus centígrados. As mudanças sempre foram lançadas para um futuro longínquo. Os pesquisadores do estudo do metano na Sibéria falam que o aumento de dois graus poderá ocorrer entre 15 e 35 anos.

Uma névoa escura no céu
Na metade do mês de janeiro, o governo chinês pediu que os habitantes das cidades de Tianjin, Pequim e Hebei saíssem de casa usando máscaras. Durante três dias uma névoa espessa escureceu o céu. Mais de uma centena de fábricas, principalmente do setor petroquímico e de revestimento, foram paralisadas, assim como 30% da frota oficial. Uma rotina dos chineses nos últimos anos. É o preço do crescimento econômico, sem o mínimo cuidado com as consequências, com o lixo liberado. O norte da China onde estão as três cidades é a região mais seca do país, mas também onde estão as reservas de carvão mineral.

Daliuta, na província de Shaanxi, tem a maior mina de carvão subterrânea do mundo. Shaanxi junto com a Mongólia Interior respondem por 40% da produção de carvão do país. E o carvão responde pelo fornecimento de 80% da energia elétrica da China, que em 2011 consumiu 3,6 bilhões de toneladas, crescendo pelo 12º ano consecutivo. O problema é que outras 363 usinas estão programadas. Aliás, no mundo outras 1.199, com potencial de produção de 1,4 milhão de MW, serão construídas em 59 países, porém, 75% na China e na Índia.

Seiva de Mordor
O consumo de carvão aumentou 50% nos últimos 10 anos. Ele responde por 29% da energia primária consumida no mundo, atrás do petróleo. Os europeus ainda são grandes importadores, ainda mais agora que o custo de funcionamento das usinas movidas a gás aumentou. E os americanos estão substituindo carvão por gás de xisto. Barack Obama, de um lado, mandou a Agência de Proteção Ambiental traçar um novo padrão de poluição para as usinas, tanto atuais como futuras. Os republicanos urraram e lançaram a “guerra contra o carvão”, acusando os democratas de provocar a demissão de milhares de trabalhadores. O carvão é produzido em 25 estados. E no próximo ano, haverá eleição para deputados e senadores, pelo menos um terço será renovado.

De outro lado, Obama diz que se houver a constatação de que o oleoduto Keystone XL for realmente de interesse da nação, então será construído. A obra na verdade envolve quatro oleodutos, dois já foram construídos – Keystone e o Pipeline -, outro está em construção e falta liberar o XL. A obra não vai fazer coisa pior do que canalizar as areias de betume, ou areias de piche, da Província de Alberta, no Canadá, até as refinarias do Golfo do México, principalmente, na costa leste do Texas. É a seiva de Mordor jorrando pela América do Norte.

E outros 140 mil quilômetros quadrados de florestas detonados. Não podemos esbravejar, porque estamos em plena seca no cerrado. No dia 5 de agosto consultei o relatório de “focos de calor”, como os burocratas apelidaram as queimadas, foram registrados “apenas” 718. Nos lugares de sempre, ou seja, de expansão da fronteira do agronegócio, talvez mais apropriado fosse péssimonegócio. Os municípios recordistas de focos:

- Formoso do Rio Preto (BA) com 112, Correntina com 82, depois Mirador (MA) com 159, seguido por Tangará da Serra (MT) com 300 e Sapezal, a terra dos Maggi, com 72, depois Baixa Grande do Ribeiro (PI) com 193 e Mateiros (TO) com 230.

Não tem nenhuma novidade. Serão milhares de focos no final da temporada. As cidades do Centro-Oeste, como Sinop ou Corumbá, ou capitais, como Porto Velho e Rio Branco, também serão cobertas por fumaça durante dias. Já comi muito pó com fumaça no cerrado e no norte. É o cão chupando manga, como diz o ditado. E não adianta chegar ao hotel à noite, pronto para descansar no ar condicionado, porque o cheiro é o mesmo.

A fábula da palmeira
Os chineses anunciaram um plano de combate à poluição de US$277 bilhões para execução nos próximos anos. Alguns líderes estão querendo implantar a pena de morte em casos graves de poluição, como o de Xangai, onde corpos de porcos foram achados no rio que abastece a cidade. Os europeus estão com o patrimônio político do combate às mudanças climáticas totalmente dilapidado. As emissões até caíram em 50 milhões de toneladas, mas não pelo esforço voluntário. Simplesmente pela recessão econômica. O preço da tonelada de carbono, comercializado nas bolsas europeias caiu de 30 para quatro euros desde 2008. A preocupação maior dos europeus é com o fornecimento de combustível fóssil, porque 15 refinarias fecharam nos últimos anos. A França é o país que mais perdeu capacidade – 25% -, mas a Alemanha perdeu 12% e o Reino Unido 11%. Não conseguem concorrer com as refinarias asiáticas e dos árabes.

Mudança mesmo somente para os ricos, quer dizer, os países ricos, como Alemanha e Dinamarca. A Alemanha fechou oito reatores nucleares em 2008 e em junho desse ano atingiu o maior pico de produção de energia solar – 23.203 MW. Até 2020, com um investimento de 550 bilhões de euros pretendem fornecer 35% da energia elétrica com fontes renováveis – atualmente é percentagem é de 22%. Mas nem tudo parece uma maravilha. Recentemente a Conergy, uma das maiores fabricantes de painéis solares pediu concordata. O mesmo aconteceu com a chinesa Suntech, maior produtora mundial, e a americana Solyndra. De repente o mercado foi invadido por painéis solares e células fotovoltaicas chinesas. Os preços caíram. Seria a revolução energética? Não, os europeus taxaram os produtos chineses, e as empresas quebraram, incluindo a seu, maior fabricante de células fotovoltaicas, também alemã.

Existe uma fábula contada pelo escritor americano Jared Diamond no livro Colapso. Ele analisa a situação da Ilha de Páscoa, onde os nativos construíram grandes esculturas de pedras aos deuses. Só que para tirar os blocos das pedreiras percorriam distâncias razoáveis. Para isso cortavam as palmeiras, que integravam a flora da ilha. Cortaram tanto, porque eram muitas esculturas, que acabaram com o ecossistema. No meio do Pacífico árido, ventando direto, sem cobertura vegetal, acabou o microclima responsável pela produção de comida. E das canoas, que eles usavam para pescar no mar mais distante. As canoas também eram feitas com a palmeira. Resultado: miséria e fome. Quem decidiu cortar as palmeiras? As lideranças políticas e religiosas.

É o que acontece neste momento no mundo: a economia dita o programa, as corporações faturam, os chefes são milionários e o resto corre atrás. Até a última palmeira.

Foto: EBC

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