Ondas de calor mais frequentes já são praticamente inevitáveis


Instituto Potsdam e Universidade de Madri afirmam que mesmo se reduzirmos as emissões de gases do efeito estufa, a quantidade de eventos extremos de altas temperaturas será multiplicada por quatro até 2040

Fabiano Ávila, Instituto CarbonoBrasil

“Hoje, graças às mudanças climáticas causadas pelo homem, os extremos de calor registrados no verão já são observados em 5% da área terrestre. A projeção é que isso dobre até 2020 e quadruplique até 2040.”

É assim que começa o alerta divulgado nesta semana pelo Instituto Potsdam para Pesquisas de Impacto Climático (PIK) e pela Universidade Complutense de Madrid (UCM). As entidades acabam de publicar um estudo avaliando a frequência e a intensidade das ondas de calor no futuro e chegaram à conclusão de que qualquer redução feita hoje nas emissões de gases do efeito estufa (GEEs) só seria sentida na segunda metade do século.

“Descobrimos que até 2040, independentemente do cenário de emissões que assumimos, a frequência de extremos de calor mensais irá aumentar em muitas vezes. Já existe tanto GEE na atmosfera que as ondas de calor são praticamente inevitáveis. Porém, um corte ambicioso nas emissões pode reduzir o número de extremos após 2050”, explicou Dim Coumou, do PIK e principal autor do estudo.

Para chegar a essas conclusões, os pesquisadores utilizaram modelos climáticos para projetar a quantidade de ondas de calor e os impactos das emissões no clima. Para confirmar se os resultados eram confiáveis, eles fizeram o mesmo processo, só que para os últimos 50 anos. Dessa forma, puderam comparar os resultados dos modelos com o que de fato ocorreu.

“Demonstramos que as simulações previram muito bem o aumento dos extremos de calor nos últimos 50 anos. Estamos confiantes de que somos capazes de avaliar o que estar por vir”, disse Alexander Robinson, da UCM.

Apesar de deixar claro que já é hora de colocar ações de adaptação em prática porque as ondas de calor são mesmo inevitáveis, o estudo também destaca a importância de não abandonar a mitigação das emissões.

A previsão é de que se tudo continuar como está, sem metas ambiciosas de corte de GEEs, até 85% da superfície terrestre estará sujeita aos extremos de calor até o fim do século.

“Em muitas regiões, até 2100, o mês mais frio do ano terá temperaturas mais altas do que o mês mais quente de hoje – isso em um cenário onde não haja controle sobre as emissões. Entraríamos em um novo regime climático”, alertou Coumou.

O estudo destaca as ondas de calor que castigaram boa parte dos Estados Unidos no ano passado e a Rússia em 2010 como exemplos do que podemos esperar que aconteça cada vez mais. Esses dois eventos causaram enormes prejuízos para a agricultura, inclusive elevando o preço dos alimentos em escala mundial, e também resultaram em dezenas de mortes de idosos.”

Citação: Historic and future increase in the global land area affected by monthly heat extremes, doi:10.1088/1748-9326/8/3/034018.

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