Estados insulares já sofrem com as mudanças climáticas


Ilhas Salomão, Kiribati, Granada e outras nações mostram sinais claros dos impactos do aquecimento global e cobram investimentos internacionais para minimizar problemas como o aumento do nível do mar

Jéssica Lipinski, Instituto CarbonoBrasil

O que você faria se praticamente todos os seus meios de subsistência, alimentação e até mesmo o local onde vive estivessem ameaçados de desaparecer por completo? Pois esse cenário, embora pareça catastrófico, é a realidade de muitos habitantes dos estados insulares de todo o mundo, e a principal causa, as mudanças climáticas.

Para as milhões de pessoas que vivem nas pequenas ilhas do Caribe, Oceano Pacífico e outros arquipélagos similares considerados paradisíacos, a vida muitas vezes está sendo um verdadeiro inferno: os impactos das mudanças climáticas estão deixando os moradores sem opções de trabalho e habitação, e não são raros os casos em que é necessário promover migrações em massa, como nas ilhas Carterets ou em Kiribati.

O caso mais recente está ocorrendo em Granada, no Caribe, onde centenas de pescadores que moram nas regiões costeiras das ilhas que formam o país observam o nível do mar aumentar e prejudicar suas moradias. Esses pescadores estão sendo realocados para novos apartamentos construídos em colinas, o que garante a eles novas habitações mas prejudica seu sustento, já que agora terão que viver muito mais longe da localidade onde trabalham.

Mas as mudanças climáticas não afetam apenas o local de moradia dos habitantes dos estados insulares e suas rotinas de trabalho, mas muitas vezes também a matéria-prima do qual dependem.

De volta a Kiribati, cujo produto interno bruto (PIB) depende 40% da pesca, e às Ilhas Marshall, onde a pesca representa um quarto da renda do país, pode-se perceber que as consequências das mudanças climáticas podem quebrar a economia de uma nação. Nessas ilhas, onde se pesca anualmente cerca de um milhão de toneladas de atum, os estoques de peixe estão sendo particularmente afetados.

“O aumento da temperatura das águas superficiais, que é maior na parte oeste da bacia oceânica, encorajará o atum a migrar para o leste em direção à Polinésia”, colocou Johann Bell, autor de um estudo do Secretariado da Comunidade do Pacífico (SPC) sobre os efeitos das mudanças climáticas na segurança alimentar dessas ilhas.

Segundo Bell, os países da região da Melanésia, como Papua Nova Guiné (PNG) e as Ilhas Salomão, são os que mais sofrerão.

“PNG tem uma grande indústria de conserva, mas em poucas décadas terá que importar atum para mantê-la funcionando. Felizmente pode contar com acordos internacionais favoráveis para comprar [peixe] onde quiser, com baixas taxas.” Outras nações com economias mais incipientes, como Kiribati ou Tuvalu, entretanto, terão perdas financeiras maiores.

A perda desses estoques de peixe está ligada aos impactos das mudanças climáticas nos recifes de corais, que funcionam como grandes viveiros e fonte de alimentos para diversas espécies de criaturas marinhas. Com o aquecimento das águas, muitas espécies migram para águas mais frias, e a maior concentração de CO2 na água prejudica o desenvolvimento tanto dos corais quanto dos animais que os habitam.

De acordo com a pesquisa, a densidade populacional dos recifes deve cair dos atuais 40% para 10% ou 20% até 2050. Em se tratando dos estoques de peixes de rio, a queda está relacionada à alta taxa de crescimento populacional nas ilhas.

Infelizmente, a pesca não é a única fonte de alimentação que está ameaçada pela elevação do nível do mar causada pelas mudanças climáticas. A agricultura também está sendo seriamente afetada, tanto devido ao avanço do mar em locais cultiváveis quanto ao sal da água marinha, que prejudica os vegetais. Os habitantes estão tendo que cultivar espécies de plantas que são mais resistentes às novas condições, como mandioca, inhame, batata-doce e banana.

“As mudanças climáticas trazem novas restrições para colheitas, que estão sujeitas a pressões ecológicas imprevisíveis como secas, concentrações de sal mais altas, temperaturas extremas e erosão”, explicou um representante do Centro para Colheitas e Árvores do Pacífico.

Apesar de todas as evidências, ainda há quem ache que tais consequências não estão trazendo prejuízos para as ilhas e seus habitantes, e veem até vantagens no fenômeno. Peter De Savary, empresário britânico e promotor imobiliário em Grand Anse Beach, afirma que a disponibilidade de capital, custos de energia e a saúde da economia global são preocupações mais urgentes do que o aumento do nível do mar.

Para ele, já que muitos dos atuais hotéis e resorts terão que ser construídos de qualquer maneira nas próximas décadas devido a desgastes naturais, os efeitos das mudanças climáticas não exigem muita atenção.

“Se o nível do mar sobe 30 ou 60 centímetros realmente não faz diferença aqui em Granada, porque temos praias que têm quedas razoavelmente agressivas. Se a água fica alguns graus mais quente, bem, é para isso que as pessoas vêm para o Caribe, água morna, então isso não é um problema”, comentou.

Nesse aspecto, Ramón Bueno, analista que há anos estuda sobre os impactos econômicos das mudanças climáticas, diz que o fenômeno atingirá muito mais as pessoas de baixa renda do que as de alta, das quais fazem parte muitos dos turistas que visitam os estados insulares.

“Uma família de baixa renda que vive no litoral, com acesso limitado a água doce limpa e que ganha a vida do turismo, pesca ou agricultura é vulnerável de uma forma que um profissional de renda média ou alta que vive em uma boa casa com ar-condicionado em uma elevação mais alta no interior não é”, declarou.

Além da falta de conscientização, a falta de financiamento para possíveis soluções para esse problema também é um desafio a ser superado. No último ano, o Branco de Investimento Europeu anunciou que daria US$ 65 milhões em empréstimos para ajudar 18 países caribenhos a se adaptarem, mas isso, infelizmente, não é o suficiente.

Em alguns casos, é ainda pior: a falta de investimento em programas de adaptação faz com que os mecanismos internacionais de financiamento sejam voltados para países médios ou grandes, o que faz com que os estados insulares do Pacífico, por exemplo, sejam considerados pequenos demais para se qualificarem.

“Não nos conseguimos fazer ouvir na arena internacional. É vital para nós agirmos como uma região”, observou Henry Puna, primeiro-ministro das Ilhas Cook. “As ilhas do Pacífico são as vítimas de países industriais incapazes de controlar suas emissões de dióxido de carbono. A verdade da questão é que não temos opção a não ser aceitar isso e nos adaptarmos”, concluiu Jimmie Rodgers, diretor do SPC.
Imagem: Avanço do oceano nas ilhas Carterets / Oxfam

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