Vício 2.0


O cigarro eletrônico, que ainda não é
regulamentado no Brasil.
Foto: Galeria de KaiChanVong



“À primeira vista o cigarro eletrônico pode parecer esquisito e, sejamos francos, um tanto ridículo. Pode-se também pensar que é mais um aparato da moda dos moderninhos – os tais dos hipsters. Mas é só à primeira vista. Dando outra chance e olhando mais de perto é possível simpatizar com o produto e, até quem sabe, ser mais um adepto das tragadas de vapor.

O princípio é simples: ao invés da fórmula tradicional de tabaco, papel e filtro, um dispositivo eletrônico com cartucho, bateria e atomizador. Alguns modelos ainda oferecem uma “brasa” em LED na ponta que acende quando o aparelho é tragado, mas esse modelo parecido com o cigarro convencional é rapidamente abandonado pelos usuários de e-cigarrettes. Nos aparelhos eletrônicos, cada vez que o ar é puxado pelo cartucho, onde estão os aromatizantes, um dispositivo ativa o atomizador que por sua vez produz vapor.

Se bem que os entusiastas do produto garantem que o cigarro eletrônico não tem nada a ver com os “analógicos”, como chamam os cigarros convencionais. “São experiências completamente diferentes, desde a própria composição até o gosto e o cheiro. Por isso preferimos chamar de vaporizador pessoal, para diferenciar”, explica Edson Shigueru, micro empresário paulista de 44 anos, administrador de um fórum sobre os e-cigarettes.

Shigueru fumava quase um maço por dia, até que descobriu os vaporizadores pessoais, há um ano e meio: “Parei de fumar no primeiro dia. Comprei mesmo com essa intenção, já que sofria muito de sinusite e rinite. Depois que fiz a troca melhorou muito, voltei até a jogar bola. Sem falar na melhora do olfato e do paladar”.

Outra vantagem apontada pelos usuários é a possibilidade de voltar a fumar em lugares fechados. “É só tapar o LED na ponta que ninguém nem percebe”, diz a funcionária pública gaúcha Mara Schafer, de 50 anos. “Ainda fumo os tradicionais, mas diminui muito, principalmente nas saídas noturnas quando meu consumo de cigarros dobrava junto com a cerveja. Agora nas baladas só levo o eletrônico”, conta.

Os olhares de curiosidade das outras pessoas podem ser um pouco incômodos, assim como possíveis piadinhas: “Alguns dos meus amigos arregalaram os olhos no ínicio, foi engraçado. Mas depois curtiram e hoje sou obrigada a levar uma bateria extra pra poder dividir meu cigarro com eles”, diz Mara. O bancário carioca Victor Deveza, de 31 anos, concorda: “Meus amigos acharam estranho quando viram, mas se acostumaram e alguns já aderiram também. Mas só fumo em casa, pois na rua as pessoas olham torto, acham que é droga”. Victor parou de fumar os cigarros de tabaco há dois anos, quando descobriu os aparelhos eletrônicos.

A maior parte dos adeptos aderiu aos vaporizadores justamente por influência dos amigos. O marketing do produto é feito apenas pelo boca-a-boca, já que sua comercialização no Brasil é proibida e a compra do produto é feita ou através de sites estrangeiros (e nacionais, agindo ilegalmente) ou durante viagens ao exterior. Apesar da venda não ser regularizada, os usuários não cometem nenhuma infração e não podem ser sancionados pela utilização do aparelho.

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) explica que falta comprovação científica das alegações terapêuticas para o tratamento do tabagismo e do suposto risco reduzido em relação aos cigarros convencionais. Alguns testes concluídos indicaram a presença de produtos cancerígenos, como a nitrosomina, mas usuários alegam que a composição dos primeiros dispositivos vindos da China (os e-cigarettes foram patenteados no país asiático em 2003) já foram modificados.

Simone Chiapetta, chefe do laboratório de Tabacos e Derivados do Instituto Nacional de Tecnologia, onde foram realizadas as pesquisas para a Anvisa, explica que é difícil escolher um dispositivo para análise: “Não há um controle de produtos, pode chegar no país todo tipo de aparelho de má qualidade. Então analisamos o que há no mercado”. Chiapetta afirmou também que o laboratório já está com material para uma nova pesquisa que deverá ser iniciada em alguns meses. “Há uma pressão da Anvisa para concluir definitivamente esse caso”, informou.

As associações antifumo são prudentes e dizem aguardar o parecer da Anvisa sobre os impactos do produto na saúde dos usuários, mas reconhecem os benefícios imediatos do cigarro eletrônico, como a inexistência da figura do fumante passivo. “Sem dúvida o dispositivo eletrônico traz menos prejuízo em todos os sentidos, seja na saúde, no convívio social e no meio ambiente. Mas ainda assim concordo com o posicionamento de precaução da Anvisa”, argumenta Wilson Bespalhuk, representante da Associação Mundial Antitabagismo e Antialcoolismo no Brasil.

Um impasse acontece também na possível classificação do produto. A primeira opção seria na categoria de “derivado de tabaco”. No entanto, alega-se que o cigarro eletrônico não contém tabaco, apenas nicotina, ainda assim opcional. Outra saída seria enquadrar o aparelho como um tratamento contra o tabagismo, como é feito em alguns países, mas esse caminho dificulta a regulamentação, já que sua eficiência é difícil de ser comprovada cientificamente, mesmo com inúmeros depoimentos positivos. Não é todo mundo que se adapta a trocar a fumaça densa do cigarro por um vapor aromático.

A quantidade de nicotina pode ser controlada pelo usuário e diminuída de acordo com sua vontade. “O próprio corpo vai pedindo pra baixar, é natural”, garante Shigueru, que hoje vaporiza três vezes menos nicotina do que quando começou. O líquido depositado no dispositivo pode ser comprado pela internet, mas também pode ser produzido em casa e adaptado ao gosto de cada usuário. Há diversos sabores como café, banana ou tabaco.

O preço do aparelho varia entre 150 e 300 reais, de acordo com o modelo. Os semi-descartáveis são mais em conta. Substituíndo o fumo convencional acaba compensando financeiramente, a não ser que a pessoa descubra um novo hobby e passe a comprar todas as novidades do mercado.

No exterior, as discussões sobre a legalização e os limites dos vaporizadores pessoais também geraram polêmica. Nos Estados Unidos o e-cigarrette foi proíbido pela FDA (Food and Drug Administration) em 2010, mas no ano seguinte os produtores entraram na Justiça e conseguiram sua liberação.

Países como França, Itália, Portugal, Canadá, Noruega, entre outros, legalizaram o produto, limitando apenas alguns aspectos como a idade do consumidor. A Austrália classificou toda e qualquer nicotina, exceto cigarros convencionais e tratamentos antitabaco, como veneno, incluindo também os vaporizadores.

No Brasil, a popularização dos cigarros eletrônicos vai depender muito da decisão da Anvisa de legalizar ou não sua comercialização. Enquanto isso, o número de adeptos aumenta timidamente, mas quem entra para o grupo não se arrepende: “Sei que não é um produto totalmente inofensivo, mas troquei 4.500 substâncias nocivas por quatro. Acho que foi um bom negócio”, conclui Shigueru.”

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