Petróleo cria dilema para esquimós no Alasca


Pesca e caça são parte vital do modo de vida em Point Hope (Foto: May Abdalla/BBC)
Comunidade teme que exploração de recursos naturais vai ameaçar uma atividade tradicional e vital: a caça a baleias.

Do G1 / BBC Brasil

Depois de uma década de batalha nos tribunais e gastos que chegaram a US$ 4,5 bilhões (cerca de R$ 9,4 bilhões), a multinacional de petróleo Shell conseguiu em 2012 a permissão para iniciar perfurações exploratórias na costa do Estado americano do Alasca.
No entanto, para a comunidade esquimó local, os Inupiats, a decisão é motivo de preocupação. Eles temem o impacto devastador da exploração do petróleo em sua principal fonte de alimento, a baleia-da-groenlândia.

O grupo Inupiat vive no norte do Alasca e seus integrantes têm permissão para capturar dez baleias-da-groenlândia por ano. O temor deste grupo é que a exploração na costa atrapalhe as rotas de imigração dos mamíferos marinhos, afastando as baleias da costa, onde elas podem ser capturada pelos caçadores.

A pesca e a caça são centrais no modo de vida deste grupo indígena. Arqueólogos encontraram provas datadas de 800 antes de Cristo que mostram que humanos já naquela época caçavam baleias na região.

"Somos os mais antigos habitantes contínuos da América do Norte", afirma o prefeito da cidade de Point Hope, Steve Oomituk. "Estamos aqui há milhares de anos".

Oomituk governa uma cidade com população de 800 pessoas e tem a mesma preocupação dos moradores de Point Hope: de que a perfuração da Shell possa destruir a cadeia alimentar que é central para a sobrevivência. Mais de 80% dos alimentos consumidos na cidade são capturados pelos moradores. "A proposta de perfuração no Ártico (da Shell) está exatamente no caminho das rotas de imigração dos animais", disse o prefeito.

"Vivemos em um ciclo de vida que não mudou durante milhares de anos. Sabemos onde os animais estão chegando. Sabemos quando eles vão para o norte, quando vão para o sul, este é o nosso lar, nossa terra, nossa identidade como um povo."

Dependência do petróleo
No entanto, Oomituk, como qualquer outro cidadão americano, depende de combustíveis fósseis: a casa dele é aquecida com diesel, ele dirige um veículo que precisa de gasolina. Além disso, em uma comunidade pobre como Point Hope, empregos são fonte de preocupação. Como prefeito, Oomituk reconhece que muitos serão beneficiados com uma nova empresa na região.


"Você quer empregos para as pessoas, você quer o crescimento da economia, mas você quer sacrificar seu modo de vida para que isto aconteça? Colocar em risco um modo de vida que está aqui desde tempos imemoriais?". Algumas pessoas na cidade simplesmente não têm o bastante para comer.

Marie Casados mostra o conteúdo de sua geladeira que é o seu suprimento de comida para o inverno: carne de baleia, pele de baleia congelada, vários tipos de peixe e um pé de urso polar que, segundo ela, é uma iguaria. Mas, na cidade também há a distribuição de sopa para os moradores mais carentes, como Patrick Jobstone. Ele está desempregado desde que saiu da prisão e luta para sustentar a família.

Um emprego na Shell seria o ideal para Jobstone e ele já está sendo treinado em limpeza de lixo tóxico, se antecipando às oportunidades que a gigante do petróleo possa trazer para região. "Se eles tiverem empregos, vou trabalhar para eles, sem problemas", afirmou. No entanto, Jobstone também teme a poluição.

"Se uma plataforma de petróleo vazar e fazer uma bagunça, como vou comer uma baleia que não esteja contaminada? Petróleo cru fica no fundo do oceano."

Possibilidade de vazamentos
Peter Slaiby, vice-presidente da Shell no Alasca, admite que existe o temor de um vazamento. "Eu imagino que vão ocorrer vazamentos e nenhum vazamento é bom. Mas vai ocorrer um vazamento grande o bastante para ter impacto na subsistência das pessoas? Na minha opinião, não, eu não acredito que isto vá acontecer."


Slaiby destaca que, por outro lado, o petróleo da costa de Point Hope pode fazer uma grande diferença. "Pode ser um passo importante na jornada para a independência energética dos Estados Unidos", afirmou.
O vice-presidente afirma que há uma queda no uso do oleoduto Trans-Alasca, que há 40 anos leva o petróleo extraído no Alasca para o resto dos Estados Unidos. "Estamos vendo o declínio, ano após ano, de 6%. Para nós, manter o oleoduto funcionando é um de nossos objetivos nacionais."

Moradores e representantes da
Shell se reuniram nocentro de Point Hope
(Foto: May Abdalla/BBC)

Reunião
No último verão no Hemisfério Norte o conselho tribal de Point Hope se reuniu pela primeira vez com representantes da Shell, incluindo Pete Slaiby. Depois da reunião, os moradores da cidade estavam emocionados, porém resignados com a perfuração.


"Precisamos conseguir toda a informação e ter certeza que será feito apropriadamente", disse Peggy Frankenson, diretora-executiva do conselho tribal. "Somos os zeladores dos animais e da terra e precisamos ter certeza que nossa cultura possa continuar para os próximos 10-20 mil anos", afirmou.

A Shell ainda não conseguiu extrair nenhum petróleo da costa em 2012. Primeiro, a perfuração foi paralisada quando um pedaço de geleira gigantesco, com cerca de 48 quilômetros de comprimento por 19 de largura, apareceu no caminho do navio da companhia.

Depois, a perfuração começou em dois lugares, mas a Shell foi proibida pela Guarda Costeira americana de estender seus poços até as reservas de petróleo, depois que uma cúpula enorme, que conteria vazamentos, quebrou durante testes.

A área agora ficará coberta de gelo até 2013 e os moradores de Point Hope conseguiram uma suspensão da execução da sentença que permite as perfurações. Para outros, isto pode ser um atraso frustrante. Mas, em 2013, a Shell voltará a perfurar a costa da região."

Um comentário:

Lucas disse...

Se eles conseguirem movimentar politicamente para declarar as práticas tradicionais patrimonio histórico reconhecido pela ONU, talvez eles consigam dificultar as coiasas ;)