Alunos transformam sucata em tecnologia

Vinicius Boprê, Porvir / Envolverde

“Os alquimistas chegaram, diria Jorge Ben se entrasse na sala de produção. Quem passa os olhos enxerga computadores velhos, muitos fios de cobre e vários componentes de informática: mouses, teclados, disquetes. Num primeiro momento não é possível compreender o trabalho, mas basta olhar ao redor para ver a pedra transformada em ouro, ou melhor, sucata transformada em tecnologia. Na cidade de Santa Maria (RS), localizada há cerca de 300 km da capital, alunos e professores do Cmid (Centro Marista de Inclusão Digital) se dedicam em construir computadores, robôs e até peças de arte com as doações da comunidade, com a reciclagem do lixo eletrônico e o uso de softwares livres. “A ideia surgiu da necessidade de se construir um espaço para garantir a inclusão digital na comunidade da nova Santa Marta, que é uma ocupação urbana em Santa Maria”, diz Algir Facco, coordenador do projeto.


Mas não pense que é assim tão simples. Antes de colocar a mão na massa, os alunos precisam estudar. Para isso, o centro disponibiliza cursos gratuitos para moradores da comunidade que tenham mais de dez anos. São eles: informática básica, informática avançada, robótica básica, robótica avançada, meta arte, curso de metareciclagem. Ludieli Fagundes da Silva, 15 , está matriculada em informática avançada, mas espera conseguir tempo para fazer um outro curso no ano que vem. Para ela, o apoio de seus pais foi fundamental: “Meu pai, desde o começo que eu falei que gostaria de fazer o curso, tratou de fazer minha inscrição. Com certeza devemos também aos nossos pais o sucesso de hoje em dia”, diz. Apesar de não saber exatamente qual carreira seguir, a aluna conta que deseja se aprimorar ao máximo “para estar preparada para trabalhar dentro do próprio Centro”.

Segundo Algir, apesar da eventual necessidade de comprar placas-mãe e memória para recondicionar alguns computadores, uma parceria com o Ministério Público Estadual ajuda muito na captação de material. Através dela, todos os computadores de máquinas caça-níquel que são apreendidos vão para o centro para serem aproveitados. Algir acredita que, com o uso dessas novas peças, será possível produzir até 100 computadores por ano. Mas não para por aí. O Cmid já desenvolveu até um carro, que segundo Algir, é uma das principais criações do projeto. Seus motores foram feitos com um limpador de para-brisas de um carro e uma máquina antiga de xerox, e ele pode ser controlado por notebook, controle de videogame e aparelho celular. Neste ano, alguns projetos de robótica do Cmid já participaram, por exemplo, do Campus Party, da Feira Internacional de Software Livre, do Rio+20 e do Latinoware.

Leonardo Jardim da Costa, 14, atua na área de robótica. Apesar de não receber notas adicionais na escola para fazer parte do projeto, o mais importante, para ele, é o “aprendizado e as viagens para belos lugares.” E mesmo com pouca idade, já planeja seu futuro: “Meus objetivos dentro do projeto é ir em vários eventos, aprender mais, conviver com culturas diferentes. Isso me dará uma ótima carreira na área da robótica”.
* Publicado originalmente no site Porvir.

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