A era do lixo. “Ele está visceralmente associado ao atual modo de vida”


Patricia Fachin, IHU On-Line / Envolverde
 
“A humanidade está movimentando cerca de 48 bilhões de toneladas de materiais por ano, mas, desse valor, “30 bilhões viram lixo”, informa Maurício Waldman à IHU On-Line. Na era do consumo descartável, as classes “abastadas” geram cerca de 1,5 a 2,0 kg/hab/dia de resíduos, enquanto entre os mais pobres o grau de resíduos despenca para 0,3 kg/hab/dia. Na entrevista a seguir, concedida por e-mail, o pesquisador esclarece que esses dados demonstram que as “estatísticas mascaram contrastes sociais ao diluírem o volume total de lixo gerado dividindo-o pelo conjunto da população”.

Para reverter a produção excessiva de lixo, Waldman enfatiza a necessidade de “rever os processos produtivos, que se pautam pela descartabilidade premeditada dos produtos, que precocemente se tornam obsoletos”. E compara: “Em 1997, a vida útil de um computador era em média seis anos. Mas, hoje em dia, a validade desses equipamentos foi abreviada para apenas dois”.

Autor do livro Lixo: Cenários e Desafios (Cortez, 2011), ele também comenta o Plano Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS), que está em consulta pública no site do Ministério do Meio Ambiente após permanecer 19 anos no Congresso. Entre as críticas, Waldman faz referência às brechas para o avanço da incineração do lixo no país. “Alemanha, Bélgica, Suécia, Irlanda, Países Baixos e os Estados Unidos certamente possuem incineradores. Mas nesses países os índices de reciclagem são respectivamente 48%, 35%, 35%, 32%, 32% e 31%. Devemos salientar que a última porcentagem refere-se aos Estados Unidos, considerado campeão mundial de desperdício. Entretanto, como se sabe, patinamos em míseros 13%! Como então propor queimar lixo quando temos tanto o que avançar na recuperação dos materiais descartados?”, questiona.

Maurício Waldman é graduado em Ciências Sociais, mestre em Antropologia Social e doutor em Geografia Humana pela Universidade de São Paulo (USP), com a tese Água e Metrópole: Limites e Expectativas do Tempo (2006). Cursou o pós-doutorado no Instituto de Geociências da Universidade de Campinas (Unicamp). Foi professor da Unicamp e atualmente é colaborador no site Geografia e Cartografia (Geocarto) e do Centro de Estudos Africanos da USP (CEA-USP).

IHU On-Line – Desde quando o Brasil investe em políticas públicas para tratar da questão do lixo?

Maurício Waldman – A expressão política pública tornou-se corriqueira nos últimos anos e ganhou um significado quase icônico no imaginário social. No senso comum, a terminologia é entendida como um conjunto de práticas que visam a garantir a qualidade do serviço administrativo, beneficiando o conjunto da população. Todavia, devemos recordar que o Estado interage com diversas forças sociais, representativas de atores que, muitas vezes, sustentam posições antagônicas entre si. Além disso, a gestão administrativa é impactada por toda sorte de inferências culturais, sociais, políticas e econômicas conjunturais. Com esses reparos em vista, já em 1830, em pleno Primeiro Império Brasileiro, a Câmara Municipal do Rio de Janeiro manifestou-se a respeito da limpeza pública.

IHU On-Line – E o que ela dispôs?

Maurício Waldman – Olha que curioso: os autos da normatização consideravam que a atribuição do serviço de coleta de lixo, além da limpeza, varrição das ruas, praças e logradouros, incluía a retirada de loucos e bêbados que estivessem perambulando pelas vias da cidade, assim como o apresamento de animais ferozes e de outros que pudessem incomodar a população. Esse decreto demonstra de forma emblemática como a questão do lixo – ao se inserir diferencialmente no tempo, no espaço e na cultura – induz diferentes modos de apreciação e sistemas de gerenciamento dos resíduos. Para complementar, seria pertinente recordar que, de um ponto de vista sociológico, a ausência de “políticas públicas” não significa inexistência de normas objetivas. Afinal, uma “não política” pública também é uma política.”
Entrevista Completa, ::Aqui::

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