Gonzalo Ortiz, TERRAMÉRICA / Envolverde“
As enormes reservas de água doce congelada dos Andes diminuem rapidamente desde meados do Século 20 devido ao “errado modelo de consumo de energia”, afirmam cientistas.A espetacular geleira número 15 do Antisana, uma das fontes de água potável da capital equatoriana, perdeu no mínimo 36% de sua massa original nos últimos 50 anos. O Antisana é um glaciar do ramal oriental da Cordilheira dos Andes, cujos três picos podem ser admirados de Quito em dias claros, pois se encontra na mesma latitude, ao sul da linha equinocial e 50 quilômetros para leste.
Por sua importância estratégica, é a mais estudada destas montanhas andinas. Tem sua longitude medida anualmente e sua massa a cada mês, como parte do acompanhamento do Instituto de Pesquisa para o Desenvolvimento (IRD, francês), junto com o Instituto Nacional de Meteorologia e Hidrologia (Inamhi) e a Empresa Metropolitana de Esgoto e Água Potável de Quito (Emaap-Q). O Cotopaxi, um dos maiores vulcões em atividade do mundo, cujo cume também pode ser visto de Quito, perdeu 40% de sua massa glacial entre 1976 e 2006, indicou Bernard Francou, representante do IRD no Equador, em entrevista ao Terramérica.
Os estudos do IRD e suas contrapartes nacionais demonstram que no Equador ocorre o mesmo que nas geleiras das cordilheiras Real, da Bolívia, e Blanca, de Peru e Colômbia, que perderam, em média, 30% de sua massa. No caso dos picos nevados que não chegam aos 5.400 metros de altitude a deterioração é maior, como ocorre com os picos Chacaltaya e Charquini, na Bolívia, Broggi, Yanamarey e Pastoruri, no Peru, e Carihuairazo, no Equador, que, estima-se, desaparecerão no prazo de 10 a 20 anos.
Bolívar Cáceres, responsável no Equador pelo projeto Geleiras, que o Inamhi mantém desde 2000, disse ao Terramérica que é realizado “o monitoramento do balanço da massa, de energia e dinâmica dos picos nevados, de dois do Antinasa (o 15 e Los Crespos) e do Carihuairazo”. Este especialista acredita que deve ser mais aprofundado o estudo das mudanças sofridas com as variações do clima e “sua possível relação com o aquecimento global, o que ainda não é bem conhecido”.
A engenheira ambiental Margarita Arias, que prepara uma tese de mestrado no Antisana, explicou ao Terramérica que utiliza modelos matemáticos para discriminar qual das variáveis meteorológicas (temperatura, velocidade do vento, brilho do Sol, etc.) tem maior influência em seu retrocesso. Por seu lado, Cáceres disse que apesar de sabermos que se trata da mudança climática, o que “tentamos determinar é sua influência de maneira exata”.
Após muitos estudos, a conclusão de Francou, com todas as precauções que tomam os cientistas, é que “o aumento da temperatura atmosférica, e seu efeito sobre a altura do limite neve-chuva, deve ser a causa mais provável do aumento da linha de equilíbrio das geleiras”. Francou, um dos maiores especialistas mundiais na matéria e autor ou coautor de livros e artigos científicos e de divulgação, disse que a redução das geleiras é um dos indicadores da mudança climática. As coisas mudaram radicalmente e em sua totalidade os Andes tropicais nos últimos 35 anos, embora estas massas geladas venham diminuindo desde o final da chamada Pequena Idade do Gelo (PEG), afirmou.”
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