16 Agosto, 2010

Etanol no tanque do planeta

Dal Marcondes, Envolverde

“A produção brasileira de biocombustíveis está entre as maiores do mundo, mas pode derrapar se o país não entrar de cabeça no desenvolvimento do etanol de 2ª geração.

O Brasil de 40 anos atrás, governado por militares e profundamente dependente de petróleo importado, muito pouco tem em comum com o país que hoje não apenas produz todo o petróleo de que necessita, como prepara-se para ocupar um posto entre os maiores produtores do mundo. Assolado por uma crise internacional que lançou às alturas o preço dos derivados de petróleo, o governo do então general Geisel adotou nos anos 70 medidas drásticas para a economia de combustível, como fechar postos de gasolina à noite e nos finais de semana, submetendo a população a um quase racionamento. No entanto, nesse cenário germinou a semente do processo que transformaria o país em grande produtor mundial de biocombustíveis e estimularia o desenvolvimento de tecnologias pioneiras para o uso do álcool de cana-de-açúcar como combustível corriqueiro para automóveis.

O Proálcool, criado pelo governo em 1975, estimulou a produção de álcool para adicionar à gasolina e, assim, reduzir a dependência de importações de petróleo. Dois importantes ganhos ambientais foram os efeitos colaterais dessa decisão: a adição de um percentual de álcool à gasolina eliminou a necessidade de usar o poluente chumbo para regular a octanagem do combustível, e os motores a álcool fizeram com que o país reduzisse suas emissões de carbono em mais de 100 milhões de toneladas entre 1975 e 2000. Sob a ótica econômica, o país deixou de gastar mais de 11 bilhões de dólares no que, à época, era conhecido como “Conta Petróleo”. Nesse mesmo período, as montadoras de automóveis contabilizaram a venda de quase seis milhões de veículos movidos exclusivamente a álcool, um modelo quase abandonado no início dos anos 90. A experiência, no entanto, serviu como base para uma nova geração de motores, os chamados flex-fuel, capazes de trabalhar tanto com álcool como com gasolina, e que já estão disseminados por diversos países.

Este é o contexto histórico que garante, em pleno século XXI, o sucesso e o crescimento de uma atividade que plantou suas primeiras raízes em 1532, na cidade de São Vicente, litoral paulista, quando Martim Afonso de Souza instalou o primeiro engenho de cana no Brasil. Hoje, existem no País 437 unidades industriais para processamento de cana para a produção de álcool e açúcar, sendo que a produção de álcool ultrapassou 25,5 bilhões de litros na safra 2009/2010. Além disso, o setor prevê investimentos de 33 bilhões de dólares até 2012, sendo 23 bilhões na área industrial e 10 bilhões na área agrícola.

No entanto, história, tradição e todo esse dinheiro não são suficientes para garantir ao Brasil um berço esplêndido nos próximos anos. A corrida pelo etanol celulósico, ou de segunda geração, produzido a partir da transformação de celulose em biocombustível, mobiliza muitos competidores. Estados Unidos, Europa e China estão no primeiro pelotão e o Brasil precisa acelerar o passo para garantir um lugar no pódio. “ A produção de álcool a partir da celulose é um processo dominado, mas ainda caro”, explica José Maria Gusman Ferraz, pesquisador da Embrapa. Ele acredita que em algum momento nos próximos cinco a dez anos o processo estará maduro para entrar em operação comercial.

Dados da Embrapa mostram que o álcool de cana-de-açúcar produzido no Brasil é o biocombustível de melhor balanço energético do mundo. Para cada unidade de energia fóssil, ou seja, derivada do petróleo empregada em sua produção, o álcool armazena 9,3 unidades. “A produção de etanol celulósico aumentará o volume de combustível sem aumentar a área plantada com cana-de-açúcar,” diz Guzman Ferraz. A estimativa é de que o aproveitamento do bagaço e parte das palhas e das pontas da cana-de-açúcar elevem a produção de álcool em 30 a 40 %, sem que necessidade de aumentar a área plantada com cana-de-açúcar.

A perspectiva de ampliar a produção a partir de novas tecnologias está provocando um grande movimento entre as empresas do setor. E o Brasil está sendo visto no cenário internacional como um dos principais atores em um mercado global de biocombustíveis. Com pouca objetividade, mas alguma visão, um colunista do The New York Times, Thomas Friedman, chegou a publicar que o país pode ser comparado a uma “Arábia Saudita dos biocombustíveis”.
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