“Órgão responsável pela liberação em série de transgênicos no Brasil não esconde relações com transnacionais de biotecnologia e posição não-científica pró-OGMs
Verena Glass, Brasil de Fato
É possível que o Brasil conquiste no início de 2010 mais um (triste) título em termos de inovação: será o primeiro país do mundo a liberar o plantio comercial de uma variedade de arroz transgênico – o LL62 da Bayer S/A. Caso venha a ser aprovado pela Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio) em reunião marcada para fevereiro, o grão da Bayer será o 20º organismo geneticamente modificado (OGM) a ser cultivado comercialmente no país – entre 2005 e 2009, a CTNBio deu carta branca ao plantio comercial de duas variedades de soja, onze de milho e seis de algodão. A liberação manterá inalterado o fluxo de aprovações consecutivas de todos os transgênicos apresentados à Comissão pelas transnacionais de biotecnologia.
A já manifesta intenção da CTNBio de permitir o cultivo de arroz transgênico não mereceria especial destaque neste cenário, não fosse uma peculiaridade: uma oposição generalizada à liberação reuniu no mesmo palanque, pela primeira vez, ambientalistas, pesquisadores pró-transgênicos e grandes produtores. Ou seja, além dos já tradicionais críticos aos OGMs, como organizações não-governamentais (ONGs) ambientalistas e dos direitos dos consumidores, se uniram contra a aprovação entidades como Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa, principal agência pública de pesquisa e apoio à transgenia no país), Federação da Agricultura do Estado do Rio Grande do Sul (Farsul), Instituto Rio Grandense do Arroz (Irga) e Federação das Associações dos Arrozeiros do Rio Grande do Sul (Federarroz).
Para a Embrapa e os rizicultores gaúchos, a maior ameaça do grão da Bayer, cuja transgenia consiste na tolerância ao herbicida glufosinato de amônio, é a transferência da mutação genética ao arroz vermelho, considerado a principal planta invasora da cultura do arroz irrigado. Com a contaminação, a variedade, que já causa prejuízos à produtividade e à qualidade do arroz em áreas altamente infestadas, se tornará resistente ao controle químico. Ou seja, de acordo com a Embrapa, o arroz transgênico, se liberado, será uma ameaça à segurança alimentar do Brasil, podendo levar ainda a uma contaminação generalizada das variedades de arroz silvestre no país.
Ora, se pesquisadores (baseados em avaliações científicas), produtores (preocupados com questões econômicas) e consumidores (atentos ao que comem – a ONG Greenpeace recolheu mais de 20 mil assinaturas para uma petição contra a liberação) se opõem ao plantio do arroz geneticamente modificado, a pergunta que se coloca é: a que interesses a CTNBio pretende atender com a sua aprovação? (Seria leviano afirmar que o desempenho das vendas de grandes transnacionais de biotecnologia tenha relação com as liberações de OGMs no Brasil – na sua maioria, variedades resistentes a produtos destas empresas. Mas fato é que, segundo a revista Exame, a Monsanto, que teve nove cultivos transgênicos aprovados, arrecadou em vendas 783,9 milhões de dólares em 2006, 899,2 milhões em 2007 e 954,8 milhões em 2008).”
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1 comentários:
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