Wilson da Costa Bueno, Portal IMPRENSA“Momentos especiais como os da emergência de pandemias e o questionamento dos alimentos orgânicos contribuem, admiravelmente, para a análise da atuação dos lobbies e da própria imprensa.
Há, certamente, vários exemplos para ilustrar essas nossas considerações mas preferimos concentrar-nos em apenas dois fatos: as pressões para a indicação dos antivirais (em especial Tamiflu para o combate à gripe suína) e a divulgação equivocada da não vantagem dos alimentos orgânicos em relação aos convencionais.
O primeiro caso diz respeito ao lobby da indústria da saúde, em particular os laboratórios farmacêuticos, louca para que cidadãos e governos utilizem intensamente os seus produtos, muitos deles de eficácia não comprovada ou, o que é pior, com efeitos colaterais importantes. Este lobby invariavelmente se faz acompanhar de uma propaganda nem sempre ética ou responsável que induz à automedicação.
O monitoramento da propaganda de medicamentos realizado pela ANVISA tem sistematicamente comprovado que um número significativo de peças publicitárias afronta a legislação, com a indicação de remédios para fins não autorizados, omissão de efeitos colaterais ou má informação. Na prática, há um desrespeito absoluto ao cidadão que, inclusive em situações como a que vivemos, é bombardeado por propaganda sobre remédios contra a gripe, dor de cabeça, num oportunismo irresponsável que é comum à chamada Big Pharma. O mesmo aconteceu em anos anteriores quando do aumento avassalador de casos de dengue, em especial no Rio de Janeiro. Ou seja, é preciso maior atenção para a postura de determinadas empresas que, como abutres, ficam à espreita da vulnerabilidade dos consumidores para avançar sobre os seus bolsos e a sua saúde.
Reportagem publicada pelo jornal O Estado de S. Paulo no dia 29 de julho último (p.A24) trazia depoimentos de especialistas recomendando cautela na prescrição de antivirais, com a alegação correta de que não funcionam em boa parte dos casos e de que não podem ser vistos como a panacéia para uma situação dramática como a da gripe suína. Há inclusive situações em que eles não são recomendados, mas, como se pode perceber, falta de esclarecimento (onde a imprensa poderia contribuir de forma positiva), desespero das autoridades (que não sabem como controlar a explosão de novos casos e cientes da precariedade dos serviços de atendimento) e despreparo de parte da classe médica (seduzidas pela fala melosa de divulgadores de remédios) acabam estimulando a prescrição dos medicamentos.
Reportagem do dia 30 de julho de 2009 (p. A19) do mesmo Estadão informa que o Ministério da Saúde vai facilitar acesso ao remédio contra gripe suína e que, na prática, o critério para indicação estará nas mãos dos médicos. Não precisa ser muito esperto para se concluir de que, se houver remédio suficiente, ele vai ser distribuído amplamente para a população, com controle pouco satisfatório (há algum controle nas farmácias?).
A mesma paranóia ocorreu no caso da gripe das aves (que infelizmente não chegou por aqui) em que países adquiriram milhões de doses como prevenção, induzidos por notícias sensacionalistas e por suspeitos lobbies de laboratórios com a omissão/cumplicidade de autoridades da área da saúde em todo o mundo.”
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