25 Outubro, 2009

Aumenta a onda de refugiados ambientais

Lester Brown, Envolverde / IPS

“A civilização do início do século XXI está encurralada entre o avanço dos desertos e a elevação do nível do mar. Se considerarmos a superfície de terras biologicamente produtivas habitáveis por comunidades humanas, a Terra está encolhendo. O aumento da densidade demográfica, antes causada apenas pelo crescimento da população, agora também é alimentado pelo implacável avanço dos desertos, e logo poderá ser afetado pelo aumento previsto do nível do mar. Na medida em que a extração excessiva esgota as reservas aquíferas, milhões mais se veem forçados a se reassentar em busca de água.

A expansão do deserto na África subsaariana, principalmente nos países do Sahel, causa o deslocamento de milhões de pessoas, obrigando-as a seguirem para o sul ou emigrarem para a África do norte. Já em 2006, uma conferência da Organização das Nações Unidas sobre desertificação realizada em Túnis estimou que para 2020 até 60 milhões de pessoas poderão emigrar da África subsaariana para a África setentrional e a Europa. Este fluxo está em curso há muitos anos.

Em meados de outubro de 2003, as autoridades da Itália descobriram um barco que se dirigia a esse país transportando refugiados procedentes da África. A embarcação esteve à deriva mais de duas semanas, ficou sem combustível, alimentos e água. Muitos dos passageiros morreram. No começo, os cadáveres foram jogados na água. Mas, após algum tempo, os sobreviventes ficaram sem forças para levantar os corpos. Deste modo, vivos e mortos compartilharam o bote. Um socorrista descreveu o que viu como “uma cena do inferno de Dante” Alighieri.

Acredita-se que os refugiados eram somalianos embarcados na Líbia. Mas os sobreviventes não revelaram seu país de origem para não serem enviados de volta. Ignora-se se eram refugiados políticos, econômicos ou ambientais. Estados falidos como a Somália expulsão sua população por causa desses três fatores. Ali há um desastre ecológico, com excesso de população, excesso de pastoreio e, como consequência, uma desertificação que destrói sua economia pastoril. Talvez o maior fluxo de emigrantes somalianos se dirija para o Iêmen, outro Estado falido. Estima-se que em2008 foram 50 mil os migrantes e solicitantes de asilo que chegaram a esse país, 70% mais do que em 2007.

E durante os primeiros três meses de 2009, o fluxo migratório foi até 30% superior ao de igual período do ano passado. Estes números simplesmente se somam às pressões já insustentáveis sobre a terra e os recursos hídricos do Iêmen, acelerando seu declive. No dia 30 de abril de 2006, um homem que pescava nas águas de Barbados descobriu um bote à deriva com os cadáveres de 11 homens jovens “Praticamente mumificados” pelo sol e pelo sal do oceano Atlântico.

Ao aproximar-se o fim, um passageiro deixou um bilhete entre os corpos: “Gostaria de enviar dinheiro para minha família em Basada (Senegal). Por favor, me perdoem e adeus”. Aparentemente, seu autor integrava um grupo de 52 pessoas que partiram desse país africano às vésperas do Natal em um bote com destino às ilhas Canárias, ponto usado como trampolim para a Europa. Devem ter viajado cerca de 3.200 quilômetros. A travessia terminou no mar do Caribe. Este barco não foi o único, durante o primeiro fim de semana de setembro de 2006, a polícia interceptou botes da Mauritânia com quase 1.200 pessoas a bordo.

Para muitos moradores de países da América Central, incluídos Honduras, Guatemala, Nicarágua e El Salvador, o México costuma ser a porta de entrada para os Estados Unidos. Em 2008, as autoridades mexicanas de imigração registraram 39 mil detenções e 89 mil deportações. Na cidade de Tapachula, na fronteira entre Guatemala e México, homens jovens em busca de trabalho esperam ao longo das vias férreas um lento trem de carga que atravessa a cidade em sua rota para o norte. Alguns conseguem subir, outros não.”
Artigo Completo, ::Aqui::

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