Daniela Estrada, TERRAMÉRICA / Envolverde"A água deve ser declarada “patrimônio comum” da humanidade, e a mineração e a agroindústria de exportação devem “retroceder”, disse ao Terramérica a canadense Maude Barlow, que há 20 anos pesquisa e denuncia a degradação e a privatização dos recursos hídricos. Barlow preside o Council of Canadians, a maior organização civil de seu país, e em 2005 recebeu o Right Livelihood Award, o prêmio Nobel alternativo. Com 16 livros escritos, hoje é assessora do presidente da Assembléia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), o nicaragüense Miguel d’Escoto.
O Terramérica conversou com ela no Chile, onde apresentou sua última obra, “O convênio azul: a crise global da água e a batalha futura pelo direito à água”.
TERRAMÉRICA: Qual a situação dos direitos da água no mundo?
MAUDE BARLOW: Esta é a questão mais contenciosa na discussão mundial sobre a água: se será mantida como um patrimônio da humanidade e um bem comum ou será convertida em uma mercadoria à qual se terá acesso por meio das regras do mercado. Este debate ocorre porque o mundo está ficando sem água. Caminhamos para um tempo onde dois terços da humanidade não terão acesso a ela. Há empresas, investidores e alguns governos que concordaram que o mercado decidirá sobre a disponibilidade de água. Isto apresenta três grandes problemas. O primeiro é que a água iria apenas para quem pudesse comprá-la, não necessariamente para quem necessitasse dela. O segundo é que, obviamente, não haveria nenhuma proteção da água para a reprodução da natureza. E o terceiro é que se criaria um desestímulo para proteger as fontes hídricas, porque, quanto mais escassa for a água limpa, mais alto será seu preço.
TERRAMÉRICA: Qual o grau de privatização da água atualmente?
MB: Ainda é muito pequeno, entre 10% e 15% dos sistemas mundiais de água potável e saneamento. Inclusive, existe um retrocesso porque muitos municípios estão recuperando sistemas públicos depois de tê-los privatizado. Nosso exemplo favorito é Paris, que esteve por quase dez anos sob um sistema privado e agora recuperou a água para a gestão pública. A outra forma de privatização é o engarrafamento. Essa é uma grande batalha em muitas comunidades do mundo. A última tendência é a privatização por meio de direitos: a água é considerada um direito de propriedade privada, vendida e comprada inclusive por intermediários (que cobram comissões no processo de comercialização). Também estão sendo criados bancos de água. O principal problema é que é gerada mais quantidade de direitos do que a água que existe fisicamente. Porém, felizmente, há pouquíssimos países que provaram este sistema. O Chile é um deles, e o mais extremista. Outros países que estão apenas começando são Espanha, Austrália e parte dos Estados Unidos e Canadá. Outro dos últimos extremos nesta tendência de mercado é que países ricos que não possuem muita água, como Japão, Arábia Saudita e alguns europeus, estão comprando terras em nações pobres apenas para ter acesso aos seus recursos hídricos. Começaram na África e agora se movem em direção à América Latina.”
Entrevista Completa, ::Aqui::


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