“Proclamar
ao respeitável público que plásticos oxi-degradáveis reduzem os resíduos
sólidos urbanos a um pó de traque é um truque que certamente induzirá à
má-educação de descartar lixo em qualquer lugar, sem qualquer cuidado,
agravando o problema da poluição ambiental. Fazer leis que imponham aos
estabelecimentos comerciais brasileiros o fornecimento de sacolinhas de um só
tipo de material aos seus clientes é, no mínimo, estultícia mercadológica
Anthony de Christo, Economia Interativa
Respeitável público! Eis aqui uma sacolinha
de plástico que chamaremos de biodegradável. Todos os supermercados serão
obrigados por lei a fornecê-las aos seus clientes, por módigos
centavos. Vocês compram tudo o que quiserem, colocam nas suas sacolinhas
mágicas, levam para casa, descartam no lixo e…. pípti pópti pum! Em pouco tempo
as sacolinhas se degradarão, sem prejudicar o meio ambiente. Esfarelam-se!
Viram pó!
Baseado na realidade, o ilusionismo fascina
porque falseia os sentidos do espectador. No truque, pelo menos o sacoleiro
mágico diz uma verdade: as sacolinhas viram pó. Mas embrulham o sapo que o
povo vai ter que engolir.
É verdade, os plásticos oxi-degradáveis não
desaparecem na natureza pois não são biodegradáveis, mas degradáveis. O truque
é que se fragmentam em pequenas partículas que se dispersam, tornando a sua
coleta e a sua reciclagem absolutamente inviáveis e gerando uma “poluição
invisível”, que causará danos ao meio ambiente como quaisquer outros poluentes.
Trocada em miúdos, a biodegradação é o
processo que os seres vivos, pequenos, médios, grandes ou microscópicos (como
os micróbios) usam para decompor os materiais mais complexos em substâncias
mais simples, como o monóxido de carbono (CO2) e água (H2O). Mas para que isso
aconteça, de um modo geral, é preciso de ar (oxigênio), luz, umidade, boa
temperatura e uma adequada mexida, de vez em quando.
Há exceções, que só confirmam as boas
regras: “bichinhos” que não precisam de ar para “digerir” o que comem; “organismos
microscópicos” que sem luz, nas fossas oceânicas, comem e descomem seus
banquetes naturais. Migalhas de pão, deixadas nos cantos da cozinha,
desaparecem mais rapidamente, a olhos vistos, por ação das formigas ou dos
bolores. O falecido, enterrado no jazigo da família, vai demorar mais tempo até
lhe sobrarem só os ossos. Faraós, enrolados em tiras de betume e protegidos na
seca escuridão das pirâmides, podem durar intactos por séculos. Aos mamutes
descobertos em geleiras só lhes faltam o sopro da vida e o berro.
Já os plásticos, como madeiras conservadas,
cascos de tartaruga e seda pura (constituídos de “plásticos naturais”) duram
como a eternidade. Deles se diz que não são biodegradáveis. Mas que se entenda,
que abandonados à própria sorte, jogados por aí, como as latinhas de cerveja
arremessadas na rodovia, no caminho da praia, tais produtos não são “comidos”
em tempo razoável por bactérias, fungos e assemelhados e transformados em suas
expressões mais simples, como o gás carbônico e a água.”